Jô e o cinema, Jô no cinema. Seu flerte com os autores marginais

Foi através de Jotabê Medeiros, de tanto ele buzinar no meu ouvido, que conheci José Agrippino de Paula. O Hitler do 3º Mundo. No Sul, confesso que não tinha a menor referência. Lembrei-me disso ao saber, tardiamente, da morte de Jô Soares. Confesso que ando cansado da programação de TV. Tenho mantido minha televisão desligada pela manhã. O maldito algoritmo, ao abrir meu laptop nesta manhã, preferiu me direcionar para a nova polêmica daquela senhora fofoqueira, ao invés de me reportar a morte de Jô. Escrevi um texto para o Estado. Jô e o cinema, Jô no cinema. Ele começou nos anos 1950, fazendo escada para todos aqueles comediantes, os considerados maiores da época. Oscarito, Grande Otelo, Ankito, Ronald Golias. No fim dos anos 1960, flertou com o cinema marginal.

José Agrippino, Rogério Sganzerla, Emilio Fontana. O Hitler do 3º Mundo, A Mulher de Todos, Nenê Bandalho. Na próxima vez que encontrar Helena Ignez, vou puxar pela memória dela. Helena, em A Mulher de Todos, como a insaciável Ângela Carne e Osso, é casada com o Dr. Plirtz, ex-carrasco nazista que domina o truste das histórias em quadrinhos no Brasil. Em 1969, essa garotada ainda nem era nascida e Rogério já estava antenado, refletindo criticamente sobre o fenômeno das HQs. Curioso como me lembro do Tarzan de Bruce Hogarth, do Príncipe Valente de Hal Foster, dos Irmãos de Lança de Jesse Marsh, um autor considerado secundário, e das tiras de uma personagem – O Coração de Julieta -, que não sei como, nem por quê, mas sempre imaginei como passando-se em Curitiba. No meu imaginário, é uma cidade invernal. Natongo e Dan-El. O príncipe zulu, filho do grande chefe Lugongo, e seu irmão de criação, que a gente descobria depois ser um príncipe Aba-Zulu.

Não creio que exista, no universo dos quadrinhos, amizade mais bonita que a dos Irmãos de Lança. Viajei. Volto ao Jô. Foi o Dr. Plirtz de Sganzerla, vingando-se de Ângela, a mulher de todos, ao lançá-la naquele balão que termina à deriva, na praia, ao sabor das ondas. Fez outro filme de que gosto muito – Amante Muito Louca, de Denoy de Oliveira, com uma Teresa Rachel endiabrada e sensacional. (Mais tarde, por seu apoio a Collor, ela foi execrada. Com outros e outras podia até ser, mas recusei-me a baní-la do meu panteão. Teresa era grande.) Na Globo, ele virou um humorista mainstream, fazendo todos aqueles programas. Faça Humor não Faça Guerra, Satíricon, Viva o Gordo. Como Chico Anísio, possuía a capacidade de se multiplicar, fazendo todos aqueles personagens. Não eram só humoristas. Eram atores, ótimos fazendo mulheres. Lembro da Norminha. Hoje em dia é incorreto falar em gordo, mas Jô não teve pudor de usar o peso a seu favor. Largou a zona de conforto – poderia, quem sabe, estar até hoje fazendo seus humorísticos – para se lançar como entrevistador, escritor, diretor de teatro. Vou esquecer o último, porque ele nunca me convenceu no ramo. Também não via seu programa de entrevistas porque, nas vezes que tentei, ele parecia falar mais que os entrevistados. (Certa vez fui ao programa de entrevistas de Dan Stuhlbach na rádio. Não lembro se tive chance de abrir a boca. Ufa, falei!)

Não creio que tenha lido todos os livros que Jô escreveu, mas alguns. O Xangô de Baker Street, O Homem Que Matou Getúlio, claro. O Xangô virou um filme bem bacana de Miguel Faria Jr., feito com profissionalismo e uma história bem contada pelo diretor que, no começo de sua carreira, em filmes como Pedro Diabo Ama Rosa Meia-Noite e Pecado Mortal, não era exatamente ‘narrativo’, sendo mais dado a experimentar. No Rio de D. Pedro II, Sherlock Holmes investiga o sumiço de um violino raro, enquanto ocorrem misteriosos assassinatos e a mítica Sarah Bernhardt se apresenta no teatro da cidade. Adoraria que a Globo reprisasse hoje o Xangô, em homenagem a Jô. Gostaria de (re)ver o filme.

Autor: Luiz Carlos Merten

jornalista

Uma consideração sobre “Jô e o cinema, Jô no cinema. Seu flerte com os autores marginais”

  1. Ai… Ai… Meu amigo… Olha essa sua boca de iconoclasta… Impagável: “diretor de teatro. Vou esquecer o último, porque ele nunca me convenceu no ramo. Também não via seu programa de entrevistas porque, nas vezes que tentei, ele parecia falar mais que os entrevistados. (Certa vez fui ao programa de entrevistas de Dan Stuhlbach na rádio. Não lembro se tive chance de abrir a boca. Ufa, falei!)”… Sei da importância dele… Mas, não era fã. Não vi o programa dele. Ah, minha TV fica 98% do tempo desligada. Nem jornal vejo. Só para para ver os jogos do Botafogo…

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