Socorro, Bruno Carmelo! Que terror é esse, X? Ou: a nova Norma Desmond está pronta para o sexo, Mr. DeMille

No post anterior, não contei a história que acho mais bonita – emocionante? – sobre Marilyn. Ela era chamada de The Body, O Corpo. Casou-se com um atleta, que parecia o marido ideal, o jogador de beisebol Joe DiMaggio. Não deu certo, mas ele nunca deixou de amá-la. Ia visitar seu túmulo e pagou para que, até o fim da vida dele, em 1999, houvesse sempre uma rosa vermelha, nova a cada dia, sobre a lápide. Não sei se alguém continua a tradição. Essa história sempre me lembrou outras. John Wayne, como o Capitão Nathan Cutting Brittles, visitando o túmulo da mulher para conversar com ela em She Wore a Yellow Ribbon/Legião Invencível, de 1949, segundo episódio da Trilogia da Cavalaria de John Ford. E Tarzan. Hein? Em Tarzan e a Cidade do Ouro, Edgar Rice Burroughs mostra o envolvimento do homem-macaco com Nemone, rainha de Cathne, a cidade do título. Nemone liga seu destino ao do leão Belthar, que o homem-macaco terá de enfrentar. Quando o próprio leão de ouro de Tarzan – Jad-bal-ja – intervém e mata Belthar, Nemone suicida-se. É muito bonita a descrição que Edgar Rice Burroughs faz de Tarzan, à luz da Lua africana, prestando homenagem à ardente rainha, que foi enterrada numa cova comum.

Ah, a Coleção Terramarear. Li toda, ou quase toda. Não só os livros de Edgar Rice Burroughs sobre Tarzan, mas os de Rafael Sabatini, Eugene Sue e tantos outros autores. Alternava os clássicos com essa literatura mais popular. Machado de Assis e Tarzan. Guimarães Rosa e Sherlock Holmes. Dostoievski e Agatha Christie. A sabedoria de Miss Marple, decifrando o mundo a partir dos personagens prosaicos de St. Mary-Mead, o vilarejo fictício criado pela Dama do Mistério – com maiúscula -, é, para mim, uma coisa dostoievskiana. Leio e releio com prazer. A grandeza e a miséria humanas. Creio que é por isso que tenho esse gosto eclético. Meus dois melhores filmes do ano, até agora, não poderiam ser mais diversos. Il Buco, de Michelangelo Frammartino, e Elvis, de Baz Luhrmann. Lembro-me do escândalo que causei em Luiz Zanin Oricchio e em nosso editor, Evaldo Mocarzel, com minha leitura visconti/bressoniana de Moulin Rouge, que eles odiaram. ‘There was a boy/A very strange enchanted boy…’ Escrevi um livro sobre isso. Cinema – Entre Realidade e Artifício. Entre fato e ficção?

Na terça, na junket de O Palestrante, encontrei Bruno Carmelo e Vítor Búrigo. Conversa vai, conversa vem, informaram-me da cabine do dia seguinte. O terror X – A Marca da Morte, no Shopping Ibirapuera. Em mais de 30 anos em São Paulo, nunca fui a esse shopping. Nem sabia e, menos sinda, a uma cabine no Shopping Ibirapuera. Também não fui dessa vez, mas fiquei curioso pelo filme. Bruno falou de sua expectativa, teceu elogios ao diretor Ti West. Lá fui eu, ontem, à pré-estreia de X, às 9 da noite, no Petra Belas Artes. O filme estará passando toda a semana no mesmo horário. X de proibido. Lembrei-me de François Truffaut, quando falava do cinema pornográfico, de sexo explícito. Sua reserva não era moral – lembrem-se de Jules/Oskar Werner em Jules e Jim, citando Oscar Wilde e pedindo a Deus que o poupasse da dor física, porque da moral se ocupava ele. Se vivo fosse, Truffaut talvez tivesse hoje de mudar o discurso. A falocracia que rege a indústria pornô é coisa malvista, oprime as mulheres. Mas, enfim, se não era moral, qual seria sua objeção?

Era estética. Não estou falando de beleza de atores e atrizes, de ‘models’, como eles chamam. A estética cinematográfica. Truffaut queixava-se da pobreza formal. Sempre o mesmo ângulo, aquele, para mostrar falos e vaginas. X – A Marca da Morte é sobre grupo que vai realizar um filme pornográfico numa fazenda distante. Todo mundo só pensa em ganhar dinheiro, menos o diretor do filme dentro do filme, que, influenciado pela politique des auteurs, quer revolucionar o pornô. Temos a loira, que nunca se sabe se está tendo orgasmo ou fingindo, o ex-marine negro – e dotado -, a ingênua que toma gosto pelo que vê. O diretor dentro do filme teoriza sobre a montagem, e o próprio Ti West realiza a montagem que ele – seu alter-ego? – propõe. Para começar, o ângulo nunca é o que desagradava a Truffaut. O filme, afinal, não é de sexo explícito. Não há penetração, nem nu frontal – exceto de um cara morto. O que há, o tempo todo, é uma brincadeira entre filme de sexo, e terror. O filme preferido do diretor estreante – dentro do filme -, afinal, é Psicose.

Ti West exercita-se no que se chama de slasher, só que, dessa vez, não é nenhum mascarado que sai matando. A fazenda pertence a um casal de idosos. Ela, que foi linda, uma bailarina, ainda sente um desejo que o marido não consegue satisfazer. E começa o morticínio. Quando O Massacre da Serra Elétrica encontra Crepúsculo dos Deuses. A bruxa que não é de Blair, mas da fazenda. A nova Norma Desmond pode não estar pronta para o close, Mr. De Mille, mas está prontíssima para a penetração. Cuidado com o spoiler. O filme começa com a chegada da polícia à fazenda. ‘Xerife, venha ver aqui no porão.’ Entra o letreiro – 24 horas antes. Tudo ocorre em apenas um dia. No final, só o que sobra é a câmera. Face à quantidade de cadáveres, o xerife imagina que seja um filme de terror. Esse é o que vemos. O que ele verá será o X. Durante todo o tempo, o pregador, na TV, adverte contra o Demônio, tomando conta do corpo das pessoas. Bruno Carmelo tem toda razão. O filme é muito interessante e Ti West, a exemplo de Jordan Peele, é um diretor que sabe o que está fazendo.

Só mais uma coisa. A ingênua – a carola – que se descobre no pornô é interpretada por Jenna Ortega. Jenna quem? Desculpem-me, mas todo mundo sabe que não sou ligado em séries. Nunca tinha ouvido falar nessa guria, mas, ao pesquisar sobre X, descobri que é cult. Seus fãs – seguidores? – estão indignados. É a única estrela do filme, e seu papel é secundário. Secundário, sim, mas prestem atenção – Jenna é pivotal na trama.

Autor: Luiz Carlos Merten

jornalista

Uma consideração sobre “Socorro, Bruno Carmelo! Que terror é esse, X? Ou: a nova Norma Desmond está pronta para o sexo, Mr. DeMille”

  1. Amigo, lembrou muito do francês: O Pornógrafo… PS: também não sou dado a séries. Vi apenas duas: Anos Incríveis e Arquivo X. Mas isto foi no século passado, rs.

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