Deus no céu e o Diabo no inferno – A Grande Feira! Mais uma história do Holocausto e os novos esplendores de Hamaguchi

Fui ontem ver A Grande Feira na retrospectiva dos 200 anos da Independência, no Petra Belas Artes. Éramos apenas dois na sala 4 do complexo. Gostei de ver o longa de Roberto Pires, que passou na versão restaurada, com crédito para Petrus Pires – filho do diretor? Meu maior choque com o filme foi pelo visual, a fotografia. Toni Rabatoni veio acho que da publicidade. Magnificou as dunas de Os Cafajestes e o sertão de Carlos Coimbra, em A Morte Comanda o Cangaço. Assina uma fotografia (neo)realista, que espelha a pobreza sem artifício, e o filme começa e termina sob o signo do cordel. Deus no céu e o Diabo no inferno. Não vou dizer que Glauber Rocha inspirou-se no Roberto Pires, mas as ligações são interessantes, e evidentes. Antonio Sampaio, futuro Pitanga, é uma entidade, como Chico Diabo. Está presente o tempo todo, mesmo sem aparecer. Aparece só lá pelo meio. Luiza Maranhão passa altiva pela Feira de Água de Meninos. Será a salvadora daquela comunidade. Sampaio e ela saíram desse filme para Barravento, o primeiro longa glauberiano. Gostei de ter visto o filme, quero voltar hoje ao Belas, às 2 da tarde, para ver Nem Sansão, nem Dalila e, amanhã, às 15h15, para ver pela primeira vez, na tela grande, o Bang-Bang de Andrea Tonacci. Só espero ter mais gente cvomiogo na sala.

Tenho colegas, jornalistas de cinema, que dizem que não aguentam mais ver filmes sobre o Holocasusto. Entendo como uma reação ao tratamento que Israel dá aos palestinos, e até inspirou um dos maiores – o maior? – filme de Amos Gitai, Kedma. Eu sempre me impressiono com histórias do Holocausto. Seis milhões de vítimas, e o entorno. Milhões de histórias possíveis. Fui ver ontem mais uma no Festival Varilux do Cinema Francês. Fred Cavayé surgiu como fotógrafo de moda, virou diretor de filmes como à Queima-Roupa, Mea Culpa e agora O Destino de Haffmann, todos interpretados por Gilles Lellouche. Daniel Auteuil é o joalheiro judeu que transfere seu negócio para o funcionário, Lellouche. Seu plano é fugir dos nazistas com a família, a mulher e os filhos seguem primeiro, mas algo ocorre e ele é forçado a se esconder no próprio porão. Instala-se a tensão entre os dois homens. Para complicar, Lellouche não é tão bom joalheiro e, para satisfazer o desejo da mulher de ser mãe, ele ainda a coloca na cama com Auteuil.

A França sob a Ocupação, a República de Vichy, o colaboracionismo. Ao passar a joalheria para o nome de Lellouche, Auteuil despertou o monstro nele. Saí do Itaú Augusta, no fim da noite, passado das 11, mortificado. Quero acrescentar que, no domingo, estava zapeando e assisti, no HBO MUndi, ao final de Cinema Paradiso. Na semana passada já havia acrescentado aquele post sobre outro filme de Giuseppe Tornatore com música de Ennio Morricone, Malena. Por sua atividade como cineasta, Tornatore recebeu, do Conselho de Ministros da Itália, o título de comendador. Cinema Paradiso venceu o Oscar, que ainda era de filme estrangeiro. O garoto Totò descobre os filmes por meio do amigo projecionista, na pequena cidade que abandona para se converter em cineasta. Volta para o enterro de Philippe Noiret – o senador James Stewart voltando para o enterro do anônimo John Wayne em O Homem Que Matou o Facínora, de John Ford? Três atores interpretam Totò, em diferentes momentos da vida. Salvatore Cascio, menino, Marco Leonardi, como um jovem homem, e Jacques Perrin, na idade madura.

Perrin morreu em abril. Tomei um choque ao vê-lo no que talvez seja seu último filme – Golias, de Frédéric Tellier, também no Festival Varilux. O advogado, Gilles Lellouche, que combate a Major que fabrica os pesticidas que estão matando gente. Perrin, o jovem de A Moça com a Valise e Dois Destinos/Cronaca Familiare, dois clássicos de Valerio Zurlini, faz o idoso que participa do movimento contra a fábrica. Na conversa por Zoom com Tellier lembrei que Perrin produziu Costa-Gavras – Z! – e destacou-se no cinema ambiental. Sua presença no filme, admitiu o diretor, era uma dupla homenagem. Ao ator e a Costa, cujo cinema Tellier admira. Recapitulando. Em Cinema Paradiso, por pressão da Igreja, Noiret suprimia as cenas de beijos nos filmes, mas não as colocava no lixo. No post-mortem, encaminha a Totò uma bobina de filme. Todos os beijos reunidos. Perrin chora assistindo a todos aqueles beijos. São suas madeleines, o tempo e o cinema reencontrados, e com a trilha de Morricone, um luxo. Chorei também.

Havia feito ontem, por Zoom, a segunda parte da minha entrevista com Rodrigo Santoro pela série espanhola Sem Limites/Boundless e, na sequência, um exame médico, uma tomografia. Fui ao Itaú Augusta para ver O Destino de Haffmann. Lúcia deixou-me na Av. Paulista, em frente ao Conjunto Nacional. Na banca, comprei a Cahiers du Cinéma de abril. Na capa – Après Drive My Car, les nouvelles splendeurs de Ryusuke Hamaguchi. Encontro/Entrevista – após Drive My Car, o novo esplendor – no plural, esplendores – de Hamaguchi. A foto do autor. Conheci-o em Cannes, quando concorreu com Asako I e II. Parece um garoto. O que é aquela expressão? Viajei só olhando a foto. Cahiers resgata um texto de Hamaguchi sobre Yasujiro Ozu. Além de grande cineasta, o cara é grande crítico! Lá vou eu polemizar. Não sou louco de não reconhecer a importância da premiação de Parasita no Oscar, mas, para permanecer no quesito meritocracia – essencial no desfecho do longa de Bong Joon-ho -, não creio que fosse o melhor daquele ano. Um ano antes, Lee Chang-dong havia aberto a trilha do cinema coreano no Oscar de filme estrangeiro com Em Chamas – que prefiro. Deveria ter ganhado. Um ano depois, Hamaguchi foi indicado nas mesmas quatro categorias de Parasita -melhor filme, melhor filme internacional, melhor roteiro (adaptado) e melhor direção.

Levou só o de filme estrangeiro. Merecia todos, mas a Academia deve ter achado demais, pela segunda vez, e com pouca diferença de tempo, validar o cinema internacional, ao invés do de casa. Olhem a capa da Cahiers. Hamaguchi ainda é novo. Tem um futuro pela frente, espero que chegue lá.

A Moreau, vestida por Cardin. E Danuza Leão, naquele vestido de Guilherme Guimarães

Hélio Fogaça salvou um comentário no post sobre os 60 anos da SAC, Sociedade Amigos da Cinemateca. Chegou a frequentar o Coral, onde viu uma obscura Mata-Hari interpretada por Jeanne Moreau. Gosto muito quando as pessoas viajam nas minhas viagens. Jean-Louis Richard – nascido Jean-Marius Richard – foi o primeiro marido de Jeanne Moreau, pai de seu único filho, Jérôme. Foi roteirista de François Truffaut em Um Só Pecado/La Peau Douce, de 1964, mesmo ano de Mata-Hari, que dirigiu, e chegou a ser indicado para o Oscar pelo roteiro de outro Truffaut, A Noite Americana, dez anos mais tarde. Guardo uma lembrança meio vaga de Mata-Hari, a agente 21. Tenho para mim que Richard e Pierre Cardin – com quem Jeanne manteve uma ligação longa – inspiraram-se no figurino da Mata-Hari de Greta Garbo para criar o guarda-roupa da espiã. Uma certa fantasia oriental, muito parecida com a da Garbo. Apesar do estímulo de Jeanne e Truffaut – para quem foi também ator -, Richard não conseguiu desenvolver uma carreira fecunda como diretor, e menos ainda converter-se em autor.

Estou me perguntando se vale acrescentar o que vou dizer agora – na época, impressionei-me com O Estranho Corpo de Diana, outro filme de Richard, de novo com a Moreau, e contemporâneo de A Noiva Estava de Preto. Le Corps de Diana é de 1968, o Truffaut – La Mariée -, de um ano antes. Uma história de ciúme e vingança, filmada em Praga, cidade que gostaria muito de ter conhecido. Não lembro direito, mas na época já escrevia no Diário de Notícias, em Porto Alegre. Fiz não sei qual relação da estética do corpo de Robert Aldrich – Os Condenados, A Lenda de Lilah Clare – com o corpo da Moreau como a vingadora dos filmes de Truffaut e Richard. A noiva caça um a um os homens que mataram seu marido na porta da igreja e Diana, até pela mitologia, é a própria caçadora. Quentin Tarantino, com certeza, baseou-se na Noiva, mas Uma Thurman, em Kill Bill, é o seu tributo ao cinema de sabre oriental. Estou aqui tergiversando e o post vai me permitir, enfim, falar sobre Danuza Leão.

Todo mundo já pagou tributo a Danuzsa, que morreu na semana passada. Não tenho a menor condição de escrever sobre ela como fez o Ruy Castro, até porque Danuza foi um dos emblemas do Rio mítico que ele não se cansa de evocar. Em Porto, sabia da existência dela, mas Nara, a irmã, musa da Bossa Nova, era uma referência mais concreta. Mas aí Danuza virou estrela de cinema. Inicialmente, pensei que ela havia feito um só filme – Terra em Transe, de Glauber. Um filme, não. ‘O’ filme. Mas Danuza fez outro filme de Glauber, e ele exigiu que ela ficasse loira, platinasse os cabelos para A Idade da Terra. Ficou tão diferente que talvez tenha sido por isso que não me lembrei imediatamente. Dois filmes, mas não dois filmes quaisquer. E assim como Jeanne foi vestida por Pierre Cardin em Mata-Hari e Joanna Francesa, que fez no Brasil, com Cacá Diegues – aquele boá -, Danuza vestiu o figurino que Guilherme Guimarães criou para ela.

Guilherme era um estilista chiquérrimo nos anos 1960. Glauber provavelmente não conseguiria pagar o vestido que ele criou para Danuza, mas quem está falando de dinheiro? Danuza e Guilherme viviam em outro universo, eram amigos. Glauber, em outra galáxia, reconhecido como gênio. Como dizer não a Glauber? Confesso que ando louco para rever Terra em Transe – no cinema. Lembrei o filme, num post anterior, como possível referência para a montagem de Papa Highirte, por Eduardo Tolentino de Araújo, e o próprio Tolentino, a quem encontrei no fim de semana, quando fui comer feijoada no Arouche, me confirmou que sim. Danuza, Paulo Autran, Jardel Filho, José Lewgoy e Glauce Rocha. Sara, a revolucionária. Quando penso nas maiores interpretações da história do cinema brasileiro, me vêm sempre as mesmas figuras.

Glauce, no Glauber, mas talvez pudesse ser Glauce em Um Homem sem Importância, contracenando com Oduvaldo Vianna Filho, o Vianninha – autor de Papa Highirte -, no longa de Alberto Salvá. Iris Bruzzi no episódio de Roberto Santos em As Cariocas – não sei se hoje ele conseguiria filmar aquilo -, e Fernanda Montenegro como Dora, em Central. Danuza, vestida por GG, entra como um sonho – de mulher e de cinema. Pronto, paguei meu tributo. E ah, sim, por mais que personificasse o espírito civilizatório de uma elite carioca bem pensante, ou talvez por isso, Danusa amava Paris, a Cidade-Luz. Modestamente, eu também amo.

De volta à Grande Feira. A negritude no cinema baiano por volta de 1960. Black is beautiful!

Fazia tempo que não ia ao Bra.Do. Houve um tempo em que era assíduo. Comemorava meus aniversários no restaurante. Voltei ontem, voltamos. Lúcia e eu. Quem sabe os 77, em setembro? O Bra.Do agora é casa. Aberto a todas as dfiferenças e acolhedor para pets. Sem brincadeira, acho que tinha mais cachorros do que gente. Como cachorreiros, Lúcia e eu realmente estávamos em casa. Passei o restante da tarde em casa, à espera do físio – Carlos -, marcado para as 6. Assisti, pela TV, ao Esquadrão Suicida – 2. Devo ser o único, no mundo, que gostou do 1. No 2, Idris Elba, como Sanguinário, substitui Will Smith, o Pistoleiro. James Gunn é o diretor. A trama passa-se agora em Corto Maltese, onde Alice Braga lidera o movimento para depor o ditator e realizar eleições democráticas. Os ratos são decisivos no desfecho. Por que os ratos? O pai diz à heroína – porque eles são as criaturas mais desprezadas do universo.

Lembrei-me de Ratatouille, o rato que queria ser chef. Interessante, quando a Academia de Hollywood e a crítica que se acha inteligente encampam a meritocracia de Bong Joon-ho em Parasita – o filho que se infiltrou no mundo dos ricos e se deu mal agora decide entrar para a universidade, ficar rico e comprar a casa em que o pai está escondido -, Gunn, no seu blockbuster, vai na contramão e elege personagens na sarjeta. Desculpem-me, mas sou da geração libertária dos anos 1960, quando Julinho da Adelaide, sabem quem é?, desconfiava da polícia mancomunada com a ditadura militar e mandava chamar o ladrão.

Nesta segunda, às 15h30, quero ver, na retrospectiva dedicada aos 200 anos da Independência, no Belas, o filme de Roberto Pires que foi decisivo na eclosão do ciclo baiano. A Grande Feira é de 1961. passa-se na Feira de Água de Meninos, misturando as camadas sociais. Atravessadores, feirantes, prostitutas, uma burguesa insatisfeita e o marinheiro sueco. Geraldo Del Rey – loiro, e Tânia Carvalho vai comentar como ele está, como era lindo! -, Helena Ignez, Luiza Maranhão, Antônio Pitanga, que ainda era Sampaio, e Riachão. Fui à História Ilustrada do Cinema Brasileiro, por Salvyano Cavalcanti de Paiva, que lista filmes brasileiros de 1929 a 88. Queria ver a foto – Geraldo e Helena -, e conferir os nomes na equipe. Fotografia de Hélio Silva, trilha de Remo Usai. Tive a maior surpresa. Nas páginas 96 e 97 estão apenas três filmes. Na ímpar, a imagem estourada de Norma Bengell que acaba de jogar o dinheiro para o alto e as notas voam ao redor dela. O filme – Mulheres e Milhões, de Jorge Ileli. Na par, Antonio Sampaio e Luiza Maranhão, a chamada Sophia Loren negra, uma deusa, e embaixo a foto menor de Geraldo Del Rey e Helena Ignez.

Black is beautiful! Impossível não lembrar de Elis Regina – ‘Eu quero um homem de cor/Um deus negro do Congo ou daqui…’ A foto do deslumbrante casal de pretos no livro pertence a Barravento, o longa inaugural de Glauber Rocha, que, no ano seguinte, levou à descoberta internacional do autor no Festival de Kárlovy-Váry, na antiga Checoslováquia. A comunidade de pescadores, o candomblé. Aruã, escolhido por Iemanjá, deve se manter virgem para que a orixá das águas salgadas proteja a comunidade. Existe aí um eco de Tabu, de F.W. Murnau e Robert Flaherty, com a diferença de gênero – lá, é a garota. Firmino/Antônio Sampaio encarna o progresso. Revolta-se contra o poder do pai de santo e arma para que Aruã perca a virgindade com a Maranhão. O jovem perde os poderes, a má sorte atinge a comunidade. Instala-se a tragédia. Fotografia de Tony Rabatony, música de Washington Bruno e Batatinha, montagem de Nelson Pereira dos Santos. Do elenco participa Lídio Silva, que seria, a seguir, também para Glauber, o Dieu noir de Deus e o Diabo.

Na próxima semana vão se completar 60 anos da histórica exibição de Barravento no festival europeu que celebrava as novas cinematografias. Incrível, fantástico, extraordinário – Antônio, agora Pitanga, estará de volta a Kárlovy-Váry integrando a equipe do novo filme de Gregorio Graziosi, o diretor de Obra. Chama-se Tinnitus, e lá vou eu correr atrás da dupla, para entrevistá-los. De volta a A Grande Feira, Água de Meninos está ameaçada pela especulação imobiliária. No ano seguinte, Francesco Rosi ganharia o Leão de Ouro de Veneza com seu clássico do cinema documentado, Le Mani Sulla Città. A especulação está na pauta paulistana. Pinheiros, onde moro, virou um canteiro de obras. Na Augusta, o anexo do Espaço Itaú, está ameaçado de vir abaixo, com o Café Fellini, uma tradição para os cinéfilos. Um bom momento para se ver A Grande Feira, e reavaliar o impacto do filme – temático e estético.

Macunaíma! O horror segundo Takashi Miike. E os 60 anos da SAC na Cinemateca

Ainda não foi dessa vez que me rendi a Macunaíma, no ciclo dos 200 filmes brasileiros que comemoram os 200 anos da Independência, no Petra Belas Artes. É o filme de Joaquim Pedro de Andrade melhor posicionado no ranking dos 100 + da Abraccine. Ficou em décimo – Limite, de Mario Peixoto, é o primeiro. Socorro! Ao Joaquim Pedro modernista – e tropicalista – prefiro o da vertente mineira – O Padre e a Moça, 31º na lista da Abraccine – pesquisei agora -, e Os Inconfidentes, o 89º. Glauber é o único autor com dois filmes entre os dez mais. Deus e o Diabo, o segundo, e Terra em Transe, o quinto. Considerando que, desde sexta, temos falado de Walter Hugo Khouri no blog, repassei a lista para ver se havia algum filme dele. Achei que nenhum! Olhei de novo e lá está o Noite Vazia, em 22º. Hélio Fogaça, que considera Khouri o maior diretor brasileiro, teria ficado indignado. Mas, enfim, o post não é sobre o ranking da Abraccine. Nem faço parte da Associação.

Não nego a importância de Macunaíma. Em 1969, fechando a década que viu o surgimento e a afirmação internacional do Cinema Novo, o longa de Joaquim Pedro converteu-se num grande sucesso de público, o maior do movimento até então. Em Cinema de Lágrimas, seu doc sobre o melodrama latino-americano, Nelson Pereira dos Santos fez uma observação – autocrítica? O movimento que colocou o povo brasileira na tela não copnseguia colocar o povo na plateia. Macunaíma foi um divisor de águas. Na revisão – deve ter sido minha décima vez revendo o filme -, continuei achando que tem belas cenas, um elenco glorioso, mas é pesadão, mais conceitual do que humorado, e é para ser uma comédia, ou não? Enfim, adiante com o post. Nesse junho que já vai terminando, o Noitão do Petra Belas Artes pegou carona na data para ir na contracorrente. Odeio o Dia dos Namorados. Estava isolado por conta da Covid-19. Teria ido só para ver um filme da programação. Audition, de Takashi Miike. Pedi à Marina, do Belas, se me conseguiria um link. Ela me enviou. Vi ontem o filme.

Aos 61 anos, Takashi Miike é um fenômeno do cinema mundial. Acho difícil, senão impossível, dar conta de seguir a produitividade desse homem. Mais de cem filmes, telefilmes, clipes. E ele é pop. Em Cannes, tive o privilégio de entrevistá-lo algumas – no plural – vezes, cortesia de meu amigo, já falecido, Richard Lormand. O único assessor internacional que sempre me passou a ideia de que realmente amava o cinema. Caí nas graças dele, e independentemente de indicação dos distribuidores brasileiros, sempre entrevistei os autores dos filmes que ele divulgava. Com Richard era assim. Não sei qual o acordo que ele fazia, mas não era como os outros. Bora! Richard levava sua cachorrinha para as entrevistas. Certa vez ela saltou no colo de Brillante Mendoza, enquanto o entrevistava por Servis. Sempre me perguntei – com quem terá ficado (a cachorra), quando ele morreu? A Berlinale homenageou-o. Depoimentos de amigos, o brinde com a taça de champanhe.

O próprio Miike é uma figura. Sempre cercado pela juventude, acho que nunca o vi repetir a cor do cabelo. Amarelo, azul, verde, vermelho. E os filmes? Miike é o verdadeiro autor do cinema de gênero. Seus filmes de samurais são coreografados de forma a fazer inveja a Akira Kurosawa – exagero, sei -, os policiais são mais violentos do que os de Quentin Tarantino. Em 2019, por conta da segunda cirurgia de joelho, não fui a Cannes. Perdi o melodrama de Miike, Primeiro Amor. Melodrama? Não tenho muita certeza. O jovem boxeador e a jovem p… Mas tenho a impressão de que foi o filme que o trouxe a Audition. O produtor de cinema viúvo. O próprio filho, o incentiva – ‘Case-se de novo, pai.’ O amigo da produtora organiza, como se fosse um casting, a série de audições para encontrar, sob a aparência de um filme, a mulher ideal. Vem aquela garota, um anjo. O amigo desconfia, mas ele se rende. A santinha é uma diaba. O horror, o horror. Imobiliza o produtor, como já havia feito com outros homens, e começa a cortar os pedaços. Sonho ou realidade? Até a mulher morta intervém – ‘Cuidado!’

Depois de Audition, fiquei com mais vontade ainda de ver Primeiro Amor. Fiz uma busca rápida e encontrei uma cópia que não me pareceu muito boa. Talvez encare, mesmo assim. E chego agora à nova programação da Cinemateca. A partir de quinta, 30, e até 10 de julho, a SAC, Sociedade Amigos da Cinemateca, estará comemorando seus 60 anos com uma programação especial dividida em três blocos. São filmes lançasdos nas salas de Dante Ancona Lopez, primeiro presidente da SAC, especialmente no Coral, considerado o primeiro cinema de arte de São Paulo. Grandes Estreias Nacionais apresentará, entre outras atrações, a versão de Deus e o Diabo na Terra do Sol, restaurada em 4-K, a que assisti em Cannesc Classics, em maio. A bandeira Grandes Estreias Internacionais abrigará obras de Arthur Penn/Mickey One, Luís Buñuel/O Cão Andaluz e O Anjo Exterminador, e dos Irmãos Taviani/Os Subversivos, mais três obras viscerais que me permitirão falar do cinema polonês que conheci na juventude, em Porto Alegre.

Cinzas e Diamantes, de Andrzej Wajda, A Passageira, de Andrzej Munk e Faraó, de Jerzy Kawalerowicz. Munk morreu num acidente de carro, em 1961, aos 40 anos, sem ter concluído A Passageira – na época, muita gente o considerava o maior nome da nova onda polonesa. Faraó foi feito por Kawalerowicz depois de Madre Joana dos Anjos, e os dois filmes dialogam de forma muito interessante. Faraó é contemporâneo da Cleópatra de Joseph L. Mankiewicz. Foi o filme mais caro feito na Polônia. O faraó Ramsés XIII contesta o poder dos sacerdotes. É sobre o Antigo Egito ou a Polônia em choque com a URSS, no âmbito do bloco do Leste europeu? E, claro, o Wajda. Zbigniew Cybulski, o chamado James Dean polonês, que morreu precocemente. A igreja bombaredeada e a cruz invertida, o Cristo com a cabeça para baixo. Confesso que me emociona muito falar sobre o cinema polonês do começo dos anos 1960.

Acho que o cinema entrou definitivamente em minha vida por meio de três grandes retrospectivas realizadas no Salão de Atos da Reitora da UFRGS. 1962/63? O pré-golpe, com certeza. (Aliás, quando fui ver o Tarkovski no Russian Film Festival, no Petra, a exibição foi aberta por uma propaganda do governo. Pátria Amada Brasil! O cinema veio abaixo. Fora, fora!) O expressionismo polonês, a idade de ouro do cinema soviético e o cinema polonês. No Correio do Povo e na Folha da Tarde, o lendário crítico gaúcho P.F. Gastal, o Calvero, preparava nosso espírito para a descoberta de S.M. Eisenstein e Potiômkin, mas eu confesso que, na época, fiquei siderado por M, Terra, A Mãe e Sansão. Vi e revi todos esses filmes muitas – um milhão de vezes? -, menos o Wajda, que vi só uma vez. Sansão e a resistência judaica ao nazismo. Como a imagem do Cristo invertido em Cinzas e Diamantes, outra imagem me marcou em Sansão. Os nazistas confinam os judeus. Constroem uma cerca. Do jeito que Wajda filma, a madeira forma uma cruz – a responsabilidade da Igreja Católica no Holocausto? Impressionante como certas coisas marcam.

O terceiro bloco da programação comemorativa na Sala Cinemateca inclui os filmes exibidos na inauguração de salas emblemáticas de São Paulo. Esses Maridos, de Luigi Comencini, inaugurou o Coral; Os Amantes de Florença, de Carlo Lizzani, o Picolino; A Ópera dos Pobres, de G.W. Pabst, o Scala; e – maior de todos – Harakiri, de Masaki Kobayashi, o auditório do Masp, quando a SAC responsabilizou-se pela curadoria dos filmes exibidos na sala. Espero poder (re)ver muitos – todos? – esses títulos. Fazem parte do meu imaginário.

Meu Sonho de Cinema (15). Khouri na Veredas, a filosofia do ciclo ‘marcelal’

Prossigo com a série das sextas-feiras, resgatando textos meus antigos, mas dessa vez, embora mantenha o título, não é do volume da Coleção Escritos de Cinema, da Prefeitura de Porto Alegre. Hélio Fogaça, que considera Walter Hugo Khouri o maior dos cineastas brasileiros, me incentiva a escrever mais sobre o autor, um livro, quem sabe. Khouri já foi o tema do Meu Sonho de Cinema anterior. O texto que vocês poderão ler agora já é da minha fase fora de Porto Alegre, mas não foi publicado no Estadão e, sim, na revista Veredas, que era patrocinada pelo Banco do Brasil e vinculada ao Centro Cultural. Tenho para mim que é melhor, mais completo.

Veredas parou de circular em 2003, dois anos depois desse texto – e no mesmo ano em que Khouri morreu. Era editada por Valéria Lamego, a quem conheço desde os tempos do Rio Grande. Há anos – décadas? – não falo com ela, mas tenho certeza de que, se nos encontrássemos, conversaríamos como se nos tivéssemos visto ontem. Amizade é isso. Perto do coração, mesmo longe dos olhos. Só para acrescentar – Valéria agora edita a Verso Brasil, que tem resgatado escritos raros e até inéditos de Lúcio Cardoso, João Cabral de Melo Neto e a correspondência entre Monteiro Lobato e Lima Barreto. No tw vocês poderão ver o belo trabalho de edição na Veredas, com fotos belíssimas de Khouri e suas estrelas – uma estonteante Odete Lara. Será que devo acrescentar? É longo, mas tenho certeza de que vale.

Um filósofo nas telas

Foi há coisa de uns dois anos. Um artigo numa revista nacional de cultura definiu o cinema de Walter Hugo Khouri como uma coisa assim, tipo Antonioni, e insistiu no velho preconceito: os filmes do cineasta paulistano seriam uma salada de jiló existencialista e sexo. Seria divertido, se não fosse a repetição de um clichê sempre associado ao diretor. Ao longo de sua carreira, uma das mais persistentes do cinema brasileiro, Khouri sempre foi alvo de incompreensões. Por sua intenção de assimilar e levar o mais longe possível a experiência europeia, com fases baseadas em Ingmar Bergman e Michelangelo Antonioni, ele foi acusado de fazer, no Brasil, um vanguardismo de segunda mão. Os últimos tempos têm sido de redescoberta e revalorização do autor.

Contribuiu bastante para isso o livro de Renato Luiz Pucci Jr., O Equilíbrio das Estrelas, que leva o sugestivo subtítulo de Filosofia e Imagem no Cinema de Walter Hugo Khouri. Pucci debruçou-se sobre toda a obra do diretor (25 filmes) e selecionou dois que o próprio Khouri coloca no chamado ciclo ‘marcelal’. São aqueles centrados no personagem Marcelo. Pucci privilegia em sua análise, As Amorosas, de 1968, e Eros, O Deus do Amor, de 1981. Retira deles a prova daquilo que outros críticos já intuiam: há um pensamento filosófico que permeia a obra do diretor. A estética khouriana é fruto da influência de Schopenhauer, assim como a de Bergman inspira-se na experiência kierkegaardiana (o embate entre comportamento estético e moral). Pode parecer insignificante, mas Pucci abre seu livro com uma dedicatória emocionante: a Walter (Hugo Khouri), Anselmo (Duarte), Paulo Emílio (Salles Gomes) e Glauber (Rocha), que constituíram obras em territórios destinados ao vazio. O mesmo sentido anima a dedicatória que Rubens Ewald Filho faz a Khouri na abertura do seu livro sobre os 100 maiores cineastas do século 20. Rubinho, o mais popular dos críticos brasileiros, quis homenagear a persistência de Khouri, que nos últimos 50 anos não se afastou do projeto de fazer cinema autoral no Brasil.

Khouri nasceu e cresceu em São Paulo. Pertence à classe de 1929. A mãe, de ascendência italiana; o pai, libanês. Quando o pai morreu, Khouri foi morar no Rio, onde, no começo dos anos 1940, fez o ginásio, enquanto morava com o avô italiano. Foi ele quem desenvolveu em Walter o amor pelo cinema. O avô o levava a ver filmes quase todos os dias. Khouri lembra que, no Rio, era chamado de paulista. E, em São Paulo, de sueco. Foi sempre um deslocado no tempo e no espaço, uma displaced person. São Paulo é essencial em sua obra, mas não essa São Paulo de hoje. O que se percebe em sua obra – é o primeiro a admiti-lo – é alguma coisa especial, um clima, uma atmosfera. Não tem nada a ver com favela, nem com desigualdades sociais ou Boca do Lixo, essas coisas todas de São Paulo. Mesmo quando filmava com o pessoal da Boca, não era o que o interessava. A São Paulo de Khouri é alguma coisa particular. Tem a ver com a USP, a rua São Luis, a cordilheira do Itatiaia, que ele mostrou em vários filmes (O Corpo Ardente, Eros, O Deus do Amor; Forever) e onde se localiza o impressionante trono de pedra, que tanto o fascina. É um mundo que Khouri criou, concentracionário, localizado em São Paulo por acaso, porque poderia, perfeitamente, estar em outro lugar.

Literatura, filosofia, cinema

O interesse pela arte começou lá pelos 16 anos. A literatura veio antes do cinema. Lia muito. Aventuras, romances, mas também Nietzsche e Schopenhauer. Encaminhou-se para a filosofia, chegou a cursar a faculdade, mas aí o demônio do cinema começou a tomar conta dele. Na faculdade, escrevia roteiros, adaptações de contos de Edgar Allan Poe e de textos de Franz Kafka. Mostrou-os a algumas pessoas. Foi parar na lendária Vera Cruz, a Cinecittà dos trópicos, como assistente de Lima Barreto. Galileu Garcia e ele ajudaram na preparação de O Cangaceiro. Quando o longa foi feito, em 1952, Khouri já estava às voltas com O Gigante de Pedra. Foi seu primeiro filme. Era todo passado numa pedreira, com uma atmosfera triste. As pessoas começaram a achar que ele era um cineasta, mas Khouri considera O Gigante de Pedra insatisfatório e prefere esquecer que o fez.

Passaram-se alguns anos até Estranho Encontro, que é de 1957. O próprio Khouri considera esse o seu verdadeiro primeiro filme. No intervalo, havia feito teleteatro na Record, crítica em O Estado de S. Paulo. Destacou-se por seus estudos sobre autores que admirava, particularmente Bergman, Josef von Sternberg e Fritz Lang. Khouri não faz segredo que Noites de Circo, de Bergman, teve sobre ele o efeito de um raio. Foi um dos maiores impactos artísticos que experimentou em toda a sua vida. O filme, sombrio e pessimista, fortaleceu nele o desejo de ser diretor e, mais que isso, autor. Estranho Encontro é bergmaniano, mas só a influência de Bergman não explica o thriller carregado de lirismo e marcado por imagens perturbadoras (a perna mecânica, por exemplo). Há nesse filme, como no do próprio Bergman, a influência do expressionismo. Khouri gosta de dizer que tem uma alma expressionista. É a linguagem que mais admira, que considera permanente e total. Tudo que é intenso acaba por ser, para ele, expressionista – e isso vale para o teatro grego, a escultura egípcia, o cinema de Bergman e Lang, e o jazz de John Coltrane. Khouri não deixa por menos e considera o cinema a arte expressionista por excelência.

Noite Vazia: revelação

Mas já naquela época ele sofria com o preconceito. Sob a influência do neorealismo, Nelson Pereira dos Santos havia lançado, com Rio 40 Graus, os fundamentos do cinema social que seria a base do Cinema Novo. Khouri, por sua filiação a Bergman – confirmada por Na Garganta do Diabo, em 1959 -, já começava a ser chamado de alienado, e logo também o seria de reacionário. Não ajudou muito o sucesso comercial de A Ilha, de 1964, talvez seu pior filme, com um roteiro meio equivocado. A grande fase de Khouri começa com Noite Vazia, de 1964, quando ele substitui Bergman por Antonioni como principal referência. Khouri gosta de dizer que não escolheu fazer um cinema urbano e intimista, marcado por indagações existenciais. Tudo isso estava tão arraigado nele que não conseguiria fazer diferente. E também só entendia o cinema como expressão autoral, na qual o diretor é escritor, assinando o roteiro.

O próprio Khouri diz que, em Noite Vazia, teve a revelação: encontrou seu tom, o tema, os personagens. Os amigos que caem na noite, numa voraz busca do sexo, fornecem o embrião para o que será, a partir de Amorosas, o ciclo marcelal. Os personagens de Mario Benvenutti e Gabriele Tinti, em Noite Vazia, trazem os germes de Marcelo. E o filme tem Norma Bengell e Odete Lara, lindas, maravilhosas e talentosíssimas. Começava ali a fama de Khouri como grande diretor de atrizes. Elas nunca mais deixaram de brilhar no seu cinema:Jacqueline Myrna, Lilian Lemmertz, Sandra Breá, Dina Sfat, Vera Fischer, Xuxa, Monique Lafond, Selma Egrei, a deslumbrante Ana Paula Arósio. Os filmes de Khouri tornaram-se sinônimos de mulheres bonitas. Mesmo quando flertava com o cinama da Boca do Lixo, ele conseguia encher seus filmes de mulheres bonitas para fazer o que seus detratores chamavam de ‘pornochique’.

A gênese de Marcelo está em Noite Vazia, naqueles dois personagens que se completam para formar um só homem, mas ele só surge mesmo em As Amorosas, interpretado por Paulo José, e a partir dai passa a existir de forma obsessiva nos filmes do diretor. Quem é Marcelo? É o cafajeste e o sonhador, o homem que busca uma sublimação, mas que no seu desejo de subir, de experimentar uma ascese, muitas vezes (quase sempre) se degreda. Essa busca de uma coisa superior, não-religiosa, é o tema dos filmes de Khouri. Como ele mesmo diz, não foi uma coisa estudada. Nunca ele se propôs – ‘Vou fazer assim’. As coisas saíram porque é o seu universo. Marcelo é o seu personagem – para muitos críticos, o alter ego. Às vezes, pode ser um adolescente, como em O Último Êxtase, de 1973; ou uma mulher, como a protagonista de O Corpo Ardente, seu belo filme com Barbara Laage, de 1965. Pode até ser três mulheres, como as datilógrafas que abrem um meretrício de luxo em O Palácio dos Anjos, de 1970, feito naquele período em que Khouri e o irmão William mantiveram o controle dos estúdios da Vera Cruz.

Marcelo pode nem aparecer, como em Eros, filme no qual Khouri radicaliza a experiência da câmera subjetiva, construindo toda a dramaturgia pelo olhar do protagonista. É sempre ele, Marcelo, com sua obsessão. No cinema de Khouri, a ascese é diferente daquela de Simeão no Deserto. Ela se dá por meio do excesso, da anulação do corpo pelo sexo. Em Khouri, a santidade está próxima da mais completa devassidão.  Basta analisar O Desejo, de 1975; O Prisioneiro do Sexo, de 1979; Convite ao Prazer, de 1980; o citado Eros; Amor, Estranho Amor, de 1982; Amor Voraz, de 1984; Eu, de 1986, Forever, de 1990; e Paixão Perdida, de 1999. Ao longo desses filmes, Marcelo – que o crítico Antônio Gonçalves Filho desconstruiu como mar e cielo, ‘mar’ e ‘céu’ – evoluiu do estudante existencialista para o herói amoral, que terminou ironizado, pelo próprio diretor, como um patético pai incestuoso (em Eu, sendo a temática retomada em Forever).

Não são muitos os casos de autores que retomam personagens e situações de forma tão insistente. Há, na literatura, o John Updike da série Rabbit, que Khouri tanto admira. Aliás, escrever romances é um sonho do diretot, que muitas vezes pensou em trocar o cinema pela literatura. Ele acha que seus roteiros têm boa qualidade literária e que a literatura pode ir mais fundo que o cinema na dissecação do tempo interior das pessoas. Mas também sabe, por experiência própria, depois de tantos filmes, que uma simples tomada às vezes pode dizer mais do que centenas de páginas.

Há no cinema de Khouri um Marcelo que ama e outro que despreza as mulheres, apenas servindo-se delas na sua incessante busca do prazer, que aplaca, por momentos que seja, o devorador sentimento de vazio que consome a alma do mais khouriano dos personagens. Para os detratores, todos os seus trabalhos compõem apenas um longo e interminável filme. Quando dizem isso, eles querem dizer que Khouri se repete, mas é ainda Antônio Gonçalves Filho quem lembra que a trajetória agnóstica do diretor é a mesma do russo Andrei Tarkovski, que também discutia em seus filmes um único e obsessivo tema: o sacrifício como busca de entendimento do logos filosófico.

Há filosofia em Khouri: Heidegger e, principalmente, Schopenhauer, como Renato Pucci Jr. expõe na sua análise da obra do diretor. Você pode até pensar que seja fácil buscar a aproximação com Schopenhauer, pois o autor de O Mundo Como Vontade e Representação não apenas fez surgir no discurso filosófico do século 19 uma interpretação do binômio essência-aparência como repercutiu em pensadores com Nietzsche e Freud, e exerceu considerável influência sobre a literatura e a arte em geral. O pensamento filosófico permeia todo o cinema de Khouri, mas o estilo é mais eclético, a ponto de absorver também a influência do expressionismo, da literatura de D. H. Lawrence e Albert Camus e do jazz.

Polêmica com o Cinema Novo

A contribuição de Pucci à valorização da obra khouriana não se faz sem polêmica, ameaçando alguns totens da cultura cinematográfica nativa. Assim, ele parte do que parece uma casualidade – o personagem de Oduvaldo Vianna Filho em O Desafio chama-se Marcelo, como o de Paulo José em As Amorosas – para concluir que Khouri, que os diretores do Cinema Novo chamavam de alienado, fez um filme mais politizado do que Paulo César Saraceni, um dos ícones da ideologização do cinema nacional dos anos 1960.

A análise do ciclo marcelal pode ser dominante, mas não é a única que deve servir como aproximação para o cinema de Khouri. Há o abertamente confessional e nem um pouco convencional Paixão e Sombras, de 1977, em que Khouri se projeta no personagem saudoso de um tempo que não volta mais, o da Vera Cruz, para discutir a validade do cinema e do seu futuro duvidoso. E há outra vertente, mais ligada ao fantástico, que começa na perna mecânica de Estranho Encontro, prossegue no rosto encoberto das vítimas que são lançadas às cataratas em Na Garganta do Diabo e chega a O Anjo da Noite e As Filhas do Fogo. Khouri faz, nesses filmes, o que define como “o meu O Médico e O Monstro”. Ele cavouca por dentro e encontra-se em As Filhas do Fogo, assim como aqueles que o conhecem intimamente acham que O Anjo da Noite é o mais “Walter” de todos os filmes que dirigiu.

Cheio de projetos que não sabe se vai realizar, entre outros motivos porque a captação de recursos está difícil. Khouri ainda espera o lançamento de As Feras, sua revisão do mito de Lulu (a de Wiedekind). Os roteiros de Luz e Fogo estão na cabeceira, prontos para uma possível refilmagem. Numa reavaliação da própria obra, Khouri revela predileção especial por Noite Vazia; Amor, Estranho Amor; Amor Voraz e Forever. Mas ele tem autocrítica suficiente para dizer que Eros – não gosta do acréscimo O Deus do Amor feito ao título – é seu melhor filme, o mais moderno, o mais ‘dele’. Essa crença não o impede de considerar O Corpo Ardente o seu mais querido trabalho. Como Khouri diz, ‘é o meu filme do coração’.

Revista Veredas, setembro de 2001

Dois festivais, o russo e o Varilux. Tarkovski, o cinema como oração. E sobre o quê, afinal, é O Acontecimento?

Iniciei o post ontem à noite. Estava voltando de uma autêntica noite festivaleira. Assisti a Andrei Tarkovski – O Cinema Como Oração, dirigido pelo filho do cineasta, Andrei A. Tarkovski, no Russian Film Festival, no Petra Belas Artes e emendei com O Acontecimento, de Audrey Diwan, no Festival Varilux do Cinema Francês, no Itaú Augusta. Jantei no Frevinho e cheguei em casa passado da meia-noite. Talvez devesse ter ficado só com o Tarkovski. Vou dizer o que a muitos poderá parecer heresia. Gosto muito de A Infância de Ivan e, principalmente, de Andrei Roublev. O primeiro estava sendo reprisado numa programação especial da Filmoteca do Quartier Latin, enquanto estava em Paris, mas não consegui encaixar na minha grade. Tarkovski, o homem que esculpia o tempo. Após o início, nunca consegui entrar no clima de Solaris, nem de O Espelho ou de Stalker, achei Nostalgia bonito e certa vez escrevi que o título de O Sacrifício era uma advertência. Na noite de ontem tive uma epifania tarkovskiana, como acho que só o episódio do sino, de Andrei Roublev, me havia proporcionado na obra do autor.

Só para constar Ivan venceu o Leão de Ouro de 1962, ex-aequo com Dois Destinos/Cronaca Familiare, de Valerio Zurlini. Jean-Luc Godard ganhou o prêmio especial do júri por Viver a Vida, Emmanuelle Riva foi melhor atriz, por Thérèse Desqueiroux, de Georges Franju, e Burt Lancaster o melhor ator, por O Homem de Alcatraz, de John Frankenheimer. Em 1983, Tarkovski concorreu em Cannes com seu filme do exílio, Nostalgia. Ele conta como Sergei Bondartchuk, o subserviente diretor de Guerra e Paz – pau mandado do regime -, integrando o júri, fez de tudo para que ele não fosse premiado. O cinema como oração, a importância da espiritualidade e o amor como sacrifício, desprendimento, entrega. Na verdade, o sacrifício, finalmente entendi, é mais que isso – busca de entendimento do logos filosófico qwue percorre o cinema do asutor. Andrei Jr. inicia o filme com uma declaração do pai. A infância do artista fornece o material que irá nutrí-lo pela vida. O pai do futuro diretor separou-se da mãe e tentou levar o filho para morar com ele, mas Andreizinho preferiu ficar com a mãe.

A mulher que nunca deixou de amar o (ex)marido. Fumando, ela o esperava na cerca da casa. Lembrei-me de Luchino Visconti e sua devoção à mãe, Carla Erba. Os tules que eram sdua marca, quando ela saía para a ÓPera, e que Visconti colocou no figurino de Dominique Sanda, quando foi a mãe do Professor/Burt Lancaster, em Violência e Paixão. Antônio Gonçalves Filho, que é tarkovskiano de carteirinha, tem de ver O Cinema como Oração. O pai pelo olhar do filho. É magnífico. Saí do Petra e corri ao Itaú Augusta para ver qual seria o programa do Varilux às 9 da noite. O Acontecimento ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza do ano passado. A questão do aborto, na França dos anos 1960, quando interromper a gravidez era crime. Não pude deixar de pensar na juíza de Santa Catarina que impediu o aborto da menina de 11 anos que foi estuprada, sob a justificativa de que ela poderia gestar o bebê e entregá-lo para adoção. Existem milhares de famílias esperando na fila de adoção, no País. Dona juíza pensou neles, não na violência – mais uma – que estava infringindo à menina. Devia achar que está fazendo um bem.

Vou misturar alhos com bugalhos, mas o que se passa com os que devem aplicar a lei no Brasil? Os procuradores da Lava-Jato – os amigos secretos do doc de Maria Augusta Ramos -, a omissão do Supremo, que demorou a acordar para os absurdos da República de Curitiba, a juíza catarinense, o subprocurador que deu um pau e rebentou sua superior hierárquica numa cidade do interior de São Paulo. O bolsonarismo segue solto, Jesus! Em O Acontecimento, a garota faz sexo uma vez, e engravida. Sua prioridade é o estudo, a universidade. Ela quer se livrar do bebê, mas o aborto era crime, na época. O filme narra sua via-crúcis, batendo de porta em porta. Ela tenta métodos abortivos em casa, vai a uma profissional que age clandestinamente. Aos 45 do segundo tempo… Veja o filme. Após o Varilux, deve estrear, acho que no dia 7.

Temos tido alguns filmes marcantes sobre aborto. 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, de Cristian Mungiu, ganhou a Palma de Ouro de 2007. Duas amigas e uma delas conhece os impedimentos legais e os percalços do precário sistema de saúde romeno ao praticar um aborto ilegal. O curioso é que, um ou dois anos antes, Cannes abrira suas portas para o cinema romeno ao apresentar, e premiar, A Morte do Senhor Lazarescu, de Cristi Puiu. A tragédia do velho levado de hospital em hospital enquanto sua saúde se deteriora. O sistema de saúde como metáfora de um sistema falido, o de Nicolae Ceausescu. Mais recentemente, Never Rarely Sometimes Always, da norte-americana Eliza Hittman, concorreu em Berlim, em 2020. Outras duas amigas, e essas viajam de uma cidade da Pensilvânia para Nova York, onde o sistema de saúde acolhe menores em processos de aborto. Confesso que os filmes de Mungiu e da Hittman me impressionaram muito mais. Saí do cinema pensando sobre o quê, afinal, é o filme de Audrey Siwan. O júri que a premiou em Veneza era presidido por Bong Joon-ho, de Parasita, e integrado por Chloë Zhao, a oscarizada autora de Nomadland. O Acontecimento é sobre o direito da mulher sobre o próprio corpo? Não tenho tanta certeza.

Tem ali uma sutileza. Quando ingressa na roda-viva do aborto, a protagonista não tem cabeça para o estudo. Pode ser barrada na universidade. Em Parasita, quantas vezes falei na falta de dialética do filme? O filho que, no final, decide ir para a universidade para estudar, vencer na vida e comprar, por meios legais, a casa em que o pai, presumivelmente, está preso. O axioma do merecimento. O que é o acontecimento? O aborto ou a questão da universidade? Ao não ser presa, como criminosa, a garota… Vejam!

Sigo com minhas entrevistas, Rodrigo Santoro! E as preciosidades no ciclo dos 200 anos da Independência, no Petra

Continuo com as minhas entrevistas. Ontem foi o Vinicius de Oliveira, e há tempos eu queria falar com o garoto de Central do Brasil, que virou um responsável pai de família. Vinicius está em Um Dia Qualquer, o policial de Pedro Von Krüger que está estreando nesta quinta, 23. A matéria deve sair amanhã no Estado. Há pouco, no início da tarde, por Zoom, foi o Rodrigo Santoro, pela série espanhola Boundless, que estreia dia 8 no streaming. Amanhã ou depois será o José Eduardo Belmonte, porque antes preciso ver o novo filme dele. Enquanto isso, estão entrando o Festival Varilux, o Festival Russo e o Israelense. Hoje às 7 da noite, no Petra Belas Artes, pretendo assistir ao tributo a Andrei Tarkovski. Agora pela manhã, mexendo em alguns papeis na mesa da sala, que virou depósito de livros – é a vantagem de morar sozinho, a bagunça é toda minha -, encontrei o impresso de Donbass, documentário de Sergei Loznitsa a que assisti em Cannes, 2018.

Hoje em dia quase não existem catálogos, releases impressos. Foi tudo para o online. Há quatro anos, Loznitsa abordava o que já era a crise da Ucrânia. Na região localizada a leste do país, grupos separatistas apoiados pela Rússia provocavam saques e morticínios. O filme tem uma das cenas mais terríveis que já vi – a multidão ululando enquanto os antisseparatistas são humilhados, espancados, e ou eu me engano ou um é morto à queima-roupa, uma coisa horrível. Bem antes da guerra que começou em fevereiro, a situação já era insustentável. Como não nos dávamos conta disso? Donbass foi o filme de abertura da mostra Un Certain Regard daquele ano. Por anos seguidos entrevistei Loznitsa presencialmente, em Cannes. Por Funeral de Estado, entrevistei-o por e-mail. É um diretor – autor – a quem admiro muito.

Aproveito para falar de uma mostra que, até agora, estava passando despercebida no blog. O Petra Belas Artes comemora 200 anos da Independência programando 200 filmes brasileiros. Pelo e-mail que recebi ontem, a semana de 23 a 29 é a última. Não sei se conseguirei dar conta, mas tem um monte de filmes que não vejo há tempos no cinema e gostaria de rever. De cara nesta quinta teria Corisco e Dadá, mas já foi, às 15 h. Às 17h30, será Aleluia Gretchen, de Sylvio Back. Amanhã, na sexta, A Margem, de Ozualdo Candeias, às 16h30. No sábado, às 18h30, Macunaíma, de Joaquim Pedro, e Rainha Diaba, de Antônio Carlos Fontoura, às 21 h. Na segunda, às 15h30, A Grande Feira, de Roberto Pires, com Geraldo del Rey e Helena Ignez, que foi decisivo no ciclo baiano. Na terça, às 14 h, Nem Sansão nem Dalila, a chanchada clássica da Atlântida em que Carlos Manga parodia o épico hollywoodiano Sansão e Dalila, de Cecil B. De Mille. E ainda tem na quarta, às 15h15, Bang-Bang, de Andrea Tonacci, que nunca vi no cinema. Que seja agora! A Margem, a Diaba, A Grande Feira, o Manga e o Tonacci são minhas prioridades nessa programação.

O Varilux chegou! E meu encantamento por Cabaret dos Bichos

Não estou dando conta de tantas entrevistas que ando fazendo. Nesta quarta, 22, começa o Festival Varilux do Cinema Francês e eu entrevistei, por Zoom, Cédric Klapisch e Frédéric Tellier, ambos de Paris. Agora pela manhã, presencialmente, foram mais duas entrevistas, com Eric Gravel, o diretor premiado – em Veneza – de Contratempos e a diretora Carine Tardieu, de Os Jovens Amantes, com Fanny Ardant como a setentona que se envolve com homem 25 anos mais jovem. Douglaspizza, que ama o cinema francês, teria muito que ver nesse evento, mas vale lembrar que o Varilux é um festival de pré-estreias e os filmes já foram comprados para passar no Brasil. Este ano serão 93 salas em 50 cidades a exibir a produção francesa. Tellier é o diretor de Golias, com Gilles Lellouch como advogado que defende os interesses de pessoas vítimas de dos pesticidas produzidos por uma Major do agronegócio.

Tellier acompanha as seguidas denúncias de mercúrio nos rios da Amazônia e da utilização de agrotóxicos, com aumento considerável das vítimas de intoxicação. Passou-me o e-mail para que eu o informe da repercussão de seu filme por aqui. Pensei em colocá-lo em contato com Jorge Bodansky, que tem sido guerreiro no cinema brasileiro com filmes que abordam tensões sócio-ambientais e conflitos agrários na Amazônia. Gilles Lelouch faz o advogado de Golias – o Daví da história – e eu deveria tê-lo entrevistado nesta manhã, mas estava febril e não saiu do quarto do hotel. Nesta quinta estreia um festival russo e na sexta uma mostra israelense, com a presença garantida de Amos Gitai. Somado ao In-Edit, e eu ainda não consegui assistir ao documentário musical de Lírio Ferreira e Natara Ney, a diretora de Espero Que Esta Te Encontre e Estejas Bem, é coisa demais para conseguir ver tudo, mas esse eu quero.

E não é só cinema. Tem o teatro. Quando fomos ao Galpão do Tapa para ver Papa Highirte, Marcos Fernando me incentivou a ver o Cabaret dos Bichos, no Teatro do Núcleo Experimental. Lá fui eu, ontem à noite. Como no Galpão – e o espaço do Núcleo é maior -, estava lotado. Tirando os blockbusters, o público de teatro tem voltado às salas com maior número, e intensidade, que o do cinema. Comentei isso numa troca de e-mails com Cláudio Fontana, que está em Um Broto Legal, o tributo de Luiz Alberto ‘Gal’ Pereira à roqueira Celly Campello. O público tem sido reduzido, e o filme é legal como o Broto. Merecia mais. Cláudio segue com A Última Sessão de Freud, que após temporada lotada no Teatro Vivo seguiu para uma sala maior, o Teatro Porto, onde fica até agosto, e os ingressos estão vendendo bem. Cabaret dos Bichos! Antes de viajar para Cannes tentei ver o Sweeney Todd, com Rodrigo Lombardi, mas só tinha ingresso para dali a semanas, e estaria fora. De volta, o musical havia saído de cartaz. Perdi. Vi Urinal, o Musical, no próprio Núcleo. Gostei muito – gostei mais ainda do George Orwell.

Espero não parecer preconceituoso se disser que o novo espetáculo tem uma pegada LGBTAIA+. A revolução dos bichos encontra a República de Curitiba e o desenho do personagem Napoleão encontra um certo procurador que se arvorava em investigador, advogado de acusação e juiz que aplicava sentenças sem provas formadas, mas convencido de que o réu – o próximo presidente do Brasil – devia ser culpado. Misturei tudo na minha cabeça. Papa, a Parada do Orgulho LGBT, o documentário de Maria Augusta Ramos, Amigo Secreto, e o Cabaret. Fiquei sonhando. Com toda certeza Terra em Transe foi inspiração para Papa Highirte e eu adoraria ver o Eduardo Tolentino discutir sua montagem à luz de Glauber. Da mesma forma gostaria de reunir Maria Augusta e Zé Henrique para debaterem doc e montagem. Na premiação da APCA, o grito na garganta – Lula lá! – já ecoou forte. Esse País precisa se endireitar. Viram hoje a prisão do ex-Ministro da Educação de Jair Bolsonaro? O cerco está se fechando, e na pesquisa divulgada hoje Lula segue abrindo vantagem. De volta ao Cabaret, que que são aqueles cantores? E a maestrina com sua banda?

Urinal e Cabaret dos Bichos estão na mesma via. Não vi o Sweeney Todd, mas imagino que seja outra vertente do musical. Lá e cá esse Zé Henrique não é mole. A montagem do Núcleo deveria terminar hoje. Foi prorrogada. Vejam, é só o que posso dizer. E lá vou eu para mais uma entrevista, com Vinicius Oliveira.

Cris Guterres – ela! – na premiação da APCA. Oiê, sou seu fã!

Estou voltando da cerimônia de premiação da APCA, Associação Paulista dos Críticos de Arte, para os melhores de 2021. Na verdade, não vim diretamente para casa, porque passei no Sujinho para jantar. Também não acompanhei toda a premiação. Esperei pelo cinema, o terceiro, após Arquitetura e Artes Visuais. Quando cheguei a São Paulo, no final de 1988, imediatamente, acho que no ano seguinte, filiei-me à APCA. Leila Reis. minha colega no Estadão – e eterna amiga – era a presidente. Sucedi-a, e exerci a presidência por quantos – dois, três mandatos? Cinema e TV sempre foram as categorias com maior número de participantes. Depois, houve um esvaziamento. A maioria dos votantes de cinema foi para a Abraccine. Neste ano, votamos apenas três – Flávia Guerra, Orlando Margarido e eu -. o mínimo exigido, estatutariamente, para validar o prêmio. Apenas um dos premiados – Luiz Bolognesi, por seu documentário A Última Floresta – compareceu, presencialmente. A APCA não é a Academia de Hollywood. Não tem dinheiro para bancar a vinda dos premiados a São Paulo.

Nosso melhor filme foi Cabeça de Nêgo, de Deo Cardoso. O melhor diretor, Madiano Marcheti, de Madalena. São filmes tão modestos, do ponto de vista econômico – mas tão bons -, que acredito que os premiados não tinham dinheiro para bancar passagem e hospedagem, e a APCA, repito, infelizmente, tem menos ainda. Considerando a longevidade – 60 anos – e a credibilidade da Associação, como não existe patrocínio? Confesso que me decepcionei com a ausência dos premiados por melhor elenco, o Marighella de Wagner Moura. Não sei se Wagner está fora do País, talvez. Seu Jorge e Adriana Esteves imagino que pudesserm pagar para vir. Não quiseram? Não acharam o prêmio importante? Não creio que tenha sido isso. Alguma falha de comunicação, talvez. A presença deles teria sido importante. Ainda bem que tivemos Luis Bolognesi, vencedor do prêmio de documentário, por A Última Floresta. Fez um discurso de agradecimento emocionante. A mitologia ianomami é grande demais para ficarmos falando apenas da destruição da etnia, da floresta.

Tenho de dizer que tomei um choque ao adentrar no Teatro Sérgio Cardoso. Não sabia que a #Vidas Negras Importam daria o diapasão da cerimônia. Caraca, uma das apresentadoras era Cris Guterres, a quem admiro tanto no Tribuna Livre, da Cultura. Cheguei a considerar a possibilidade de esperar até o fim da cerimônia, só para tentar cumprimentá-la. ‘Oi, Cris, sou seu fã!’ Mas aí veio a percussionista mineira Josy.Anne. O que é aquela mulher, com aquele tambor? Só tenho de dizer que, mesmo não tendo ficado até o fim, gostei demais de ir à premiação da APCA deste ano.

Tanto mar, de gente. E Monica Bellucci, de Malena a Assassino sem Rastro

Fui mais um naquele mar de gente. Três milhões e um. A Paulista lotada e, feito onda – Tanto Mar -, a multidão avançou rumo à Praça Roosevelt. Marquei presença, aplaudi o mantra – Vote com orgulho! -, mas não fiquei muito tempo. Consegui ontem, finalmente!, ver Assassino sem Rastro. Num post anterior, citei Noite sem Fim como o melhor filme de Liam Nesson como herói de ação, e até observei que a excelência do longa de Jaume Collet-Serra estava ligada ao personagem do filho, interpretado por Joel Kinnaman. O novo filme me surpreendeu, a mim que já andava cansando de Neeson. Para seguir adiante com o post vou dar spoiler. O assassino que ele cria dessa vez está mergulhando na noite sem fim da perda de memória pelo Mal de Alzheimer. Ele até… Veja, e o interessante é que lá pelas tantas o arco desloca-se. O trio de policiais encabeçado por Guy Pearce torna-se decisivo. Cada vez menos procuro informações antecipadas sobre o que vou ver. Tomei um choque quando entrou em cena aquela mulher – mas não é a Monica Bellucci?

No outro dia estava fazendo uma pesquisa no YouTube e o algoritmo me direcionou para um vídeo – a trilha de Ennio Morricone para Malena. Assisti ao longa de Giuseppe Tornatore no Festival de Berlim. Hector Babenco era jurado naquele ano. Contei-lhe como havia me encantado com o Tornatore. A cena em que o garoto, vendo passar a Bellucci, tem sua primeira ereção. Hector divertia-se. Dizia que eu era um romântico – em portunhol, romántico – e alertava que tomasse cuidado. Poderia me dar mal. Será que tinha bola de cristal, ou sabia avaliar as pessoas melhor do que eu? Tive conversas reveladoras com Hector. Não sei como, nem por quê, mas contamo-nos coisas íntimas que guardo para mim. Malena, a Bellucci! O filme é de 2000. Ela era um esplendor, faltava tela para tanta mulher. Em 2002, em Cannes, houve o choque de Irreversível, de Gaspar Noë, o estupro na passagem subterrânea. O argentino-francês Noë virou alvo preferido das feministas. Mais dois anos e, em 2004, a Bellucci foi a Maria Madalena de Mel Gibson em A Paixão de Cristo. Tantos papeis fortes, mas Malena me marcou.

Os garotos face ao mistério da mulher. Sempre achei que Tornatore fez a sua versão do fascínio de Guido Anselmi menino pela Saraghina – la rumba! – em Oito e Meio, com a diferença de que Federico Fellini amava o grotesco. Saraghina é meio bruxa, demoníaca. Malena também é demonizada na comunidade. Mulher de um soldado dado como morto na guerra, ela é assediada pelos ocupantes nazistas. O retorno do marido, que perdeu o braço em combate, devolve-lhe a dignidade. O protagonista, que cresceu, vê a mulher passar amparada pelo marido. Silêncio mortal. Malena é sobre o quê, exatamente? Perdas e ganhos? Surpreendi-me com a Monica Bellucci de Assassino sem Rastro. Faz a vilã da história. O poder do dinheiro. Grande filantropa, na verdade tenta encobrir os crimes do filho pedófilo, abusador das garotas que hospeda num suposto centro de acolhimento. Monica está com 57 anos. Uma subtrama coloca em xeque a idade, a própria beleza. O rosto vira máscara de amargura, de maldade – por amor ao filho.

Martin Campbell é bom de ação – 007 Contra GoldenEye, Cassino Royale, A Lenda de Zorro. Acredita que o personagem deve preceder a ação. Guy Pearce está um bagaço, expressão da baixa estima do personagem, após perder a mulher e o filho. Toda a trama de Assassino sem Rastro gira em torno ao fato de que o profissional/Neeson recusa-se a matar uma garota, a menina que foi abusada. O personagem-chave é o íntegro policial mexicano que o FBI tenta marginalizar, para proteger os ricos e poderosos – a rica e poderosa. Gostei de ver Assassino sem Rastro. Enquanto permitir que figuras secundárias roubem o foco em seus filmes, Liam Nesson terá toda minha admiração.

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