Meu Sonho de Cinema (28). “Beije a Lúcia por mim”

O primeiro tango em Paris de Bernardo Bertolucci a gente não esquece. Foi em O Conformista, o longa de 1970 que ele adaptou do romance de Alberto Moravia. Antes de seguir adiante quero fazer uma pequena reflexão, ou provocação. Moravia inspirou os talvez maiores filmes de Jean-Luc Godard (O Desprezo) e Bertolucci. Godard, o grande revolucionário da linguagem. Bertolucci, que também começou radical, revolucionário – La Commare Secca, com roteiro de Pier-Paolo Pasolini, e o viscontiano Antes da Revolução – e foi consagrado na Academia de Hollywood. Lembro-me dele agradecendo a chuva de Oscars para O Último Imperador. Bertolucci usou uma metáfora que não sei se os norte-americanos receberam muito bem. Falou no seio acolhedor – the breast – da ‘América’.

O Conformista está disponível na MUBI. Jean-Louis Trintignant faz o fascista que, em 1938, recebe a missão de matar, em Paris, seu antigo professor, que se transformou num ácido crítico da tomada do poder por Benito Mussolini – e seus camisas negras – na Itália. Trintignant não é muito convencido de nada. Age por inércia, indo com os outros, mais do que por convicção ideológica. Sua necessidade de aceitação está ligada ao abuso que sofreu quando criança, e à homossexualidade que reprime. Como ‘amigo’, Trintignant visita o mestre. Leva a mulher, Steffania Sandrelli. O Professor está casado com a mulher por quem Trintigant largaria tudo – a esposa, a missão, o fascismo. Dominique Sanda é quem faz o papel. É bissexual. Tem uma erótica cena de dança – o primeiro tango – com Steffania. Dois anos depois, de novo em Paris, Marlon Brando e Maria Schneider dançaram o último tango para Bertolucci.

Tive o privilégio de entrevistar Bertolucci algumas vezes. Na última, em Cannes, quando lançou a versão remasterizada/restaurada de O Último Imperador, já estava paralítico, na cadeira de rodas. Tentava ironizar. Sempre gostou tanto de travellings que a vida – o destino – o confinara àquela cadeira, que podia girar à vontade. Bertolucci ganhou todos aqueles Oscars em 1987 – melhor filme, direção, roteiro adaptado, fotografia, montagem, trilha, direção de arte, figurinos, som. Estarei esquecendo algum? Procurei se havia crítica de O Conformista no livro Meu Sonho de Cinema, na Coleção Escritos de Cinema, da Prefeitura de Porto Alegre. Tenho certeza de haver escrito sobre o filme, mas só encontrei a crítica de O Último Imperador. Vale!

Sempre tive meus favoritos na obra de Bertolucci. A Estratégia da Aranha, que ele adaptou de Jorge Luis Borges – O Tema do Herói e do Traidor -, O Conformista, Último Tango em Paris, Os Sonhadores. Assisti tardiamente, durante a pandemia, a Partner, do qual não gostei tanto. Cannes Classics me permitiu rever o operístico, suntuoso Novecento. Aquele começo – il gobbo, “Verdi è morto!” Deslumbrante! Em 1996, há 26 anos, Bertolucci fez de Cannes a vitrine para o lançamento internacional de Beleza Roubada. Naquela villa, na Toscana, Liv Tyler faz seu rito de passagem. Haviam – os distribuidores brasileiros – me prometido uma entrevista com o diretor, mas em Cannes falei apenas com Steffania Sandrelli. Menos mal que foi uma one a one, e eu pude falar não apenas da parceria dela com Bertolucci, mas também com Pietro Germi, Ettore Scola. Entrevistei depois Bertolucci pelo telefone. Disse-lhe que tinha uma filha chamada Lúcia, e a personagem de Liv chama-se Lucy. É um filme do qual gosto muito. Puxei o assunto de Luchino Visconti, Bertolucci me disse que era mais Roberto Rossellini. Foi um momento mágico para mim. No final da entrevista, ao despedir-se, exibiu toda a sua grandeza e sensibilidade. Disse – “Dê um beijo na Lúcia por mim.”

O REVOLUCIONÁRIO DE OLHO NA ACADEMIA

Aos 47 anos (nasceu em Parma, no dia 16 de março de 1941), o complexo de Édipo que o italiano Bernardo Bertolucci parecia haver exorcizado em La Luna, de 1978, continua afligindo o cineasta. Pu Yi, o último imperador da China no filme indicado para nove Oscar nesta segunda-feira, dia 11, é um homem em conflito consigo mesmo, porque, ainda pequeno, foi separado da mãe. É a explicação, talvez um pouco simplista, para a complexidade de um personagem que foi um eterno mutante, mas que tem tudo a ver com o próprio Bertolucci, filho de Marx e Freud, de Luchino Visconti e Jean-Luc Godard. Bertolucci, inclusive, suaviza traços fundamentais da personalidade do ex-imperador, que, segundo seus biógrafos, era pedófilo, sádico e bissexual, além de caprichoso e insuportável. Pu Yi lhe interessa como possibilidade de falar sobre o homem como ser mutante, projetando-se na ideia de que é possível a metamorfose radical.

Será mesmo? Pois uma das ambiguidades mais interessantes do filme é a cena, pouco antes do final, em que Pu Yi volta a sentar-se no trono em que foi investido quando tinha apenas três anos de idade. O simples cidadão, o jardineiro, reencontra-se consigo mesmo (a dupla metáfora do grilo e da criança) só depois de constatar a crise de um sistema onde o seu educador passou a ser humilhado publicamente na rua. Vem daí que talvez seja ilusória a leitura de críticos como Pepe Escobar, segundo o qual Bertolucci filmou uma mudança radical, mostrando o Filho do Céu, que só adquire sua liberdade como homem comum. O último imperador, apesar de suas sucessivas transformações, permanece imperador até o fim, mais democratizado, por certo, mas depois dele o que o cineasta filma é um trono vazio, num palácio destituído de vida e transformado em gélido elemento de fascinação (ou curiosidade) pública.

É o que faz de O Último Imperador um filme tão bertolucciano: herói e traídor, Pu Yi vive o clássico conflito entre homem e poder, entre coração e mente, entre a ânsia hedonista e os imperativos da política. O próprio Bertolucci gosta de afirmar que, em seus filmes precedentes, filmava a trajetória do homem do centro luminoso para as trevas e agora está seguindo o caminho inverso, iluminando uma trajetória que foi, com frequência, tenebrosa. E todo o sofrimento de Pu Yi, prisioneiro primeiro das muralhas da Cidade Proibida e, depois, por toda a vida, de estruturas que ele próprio erigiu, foi porque nunca conseguiu resolver satisfatoriamente em sua cabeça o conflito gerado quando separou-se da mãe, ainda bebê. É a primeira de uma série de separações traumáticas que vão ocorrer dentro do filme: da mãe, do pai, da ama, que é uma espécie de mãe substituta, e do tutor inglês, que também não deixa de ser um substituto para o pai.

Só depois de despedir-se de Reginald Johnson (Peter O’Toole), o Pu Yiu de John Lone ingressa na farsa que os japoneses montaram na Manchúria. Como imperador-fantoche de um estado de mentira, o ex-playboy ocidentalizado que canta Am I Blue? continuará prisioneiro de portas fechadas, destituído de um poder de verdade. Neste processo, levará à destruição sua bela esposa (Joan Chen), enquanto a segunda achará seu caminho para a liberdade, significativamente sob uma chuva purificadora. Ao tratar dramaticamente este homem que fez muitas vezes (quase sempre) escolhas equivocadas, Bertolucci não deixa de permanecer fiel a uma temática que vem do começo de sua carreira: sim, pela própria escolha formal, pela suntuosa sinfonia de cores e sons (a surpreendente trilha musical de Ryuichi Sakamoto, David Byrne e Cong Su, o primeiro presente no elenco como o personagem Amakasu), O Último Imperador mostra o cineasta mais uma vez disposto a celebrar o fausto de se viver antes da revolução.

Para espectadores que não esqueceram que Bertolucci realizou há 15 anos o memorável Último Tango em Paris, cenas como a do jovem Pu Yi sugando o seio da ama ou entregando-se à brincadeiras eróticas com as duas esposas, apenas insinuadas sob um lençol, indicam que o cineasta ainda não esgotou as possibilidades fornecidas por este imenso território que é o sexo no cinema. Com seu sensualismo plástico, ele transforma em festa para os olhos o que, nas mãos de outros diretores, poderia ser somente pornografia. O mais bertolucciano dos personagens, nos limites da rebeldia e do conformismo que tanto mexem com o autor, é tratado com excessiva discrição. O ritmo lento pode ser encarado (ou aceito) como uma tentativa de aproximação da cultura oriental, mas falta a este edulcorado painel sobre a China a convulsiva beleza dos grandes filmes de Bertolucci: A Estratégia da Aranha, O Conformista e Último Tango em Paris.

Há 20 anos, este homem assimilou ao seu cinema o espírito de Maio de 68 (num filme, de resto, muito discutido: Partner), mas hoje, às vésperas de um outro maio, duas décadas depois, está prestes a ser entronizado pela Academia (de Hollywood), mesmo que, para isso, tenha de criar soluções como a do desfecho de O Último Imperador, com a citada metáfora do grilo e da criança. Como escreveu Paulo Francis, é o tipo de coisa que se espera de um Richard (Gandhi) Attenborough, não de um Bertolucci. Mal comparando, lembra a balalaica de Rita Tushingham no final de Doutor Jivago, um fecho ruim que outro grande diretor, o britânico David Lean, criou para o seu romântico painel sobre a Rússia revolucionária do começo do século. O Último Imperador concorre ao Oscar nas categorias principais de melhor filme e direção, e mais outras sete. É o favorito aos prêmios de hoje, depois que receber os Globos de Ouro da Associação de Cronistas Estrangeiros de Hollywood, o prêmio de direção do Director’s Guild of America e o César (o Oscar do cinema francês) para a melhor produção estrangeira.

Diário do Sul, Porto Alegre, 11 de abril de 1988

Como se contam mentiras. Não, não é a campanha de Bolsonaro, mas os falsos documentários da Cinemateca

Começa hoje à noite – quinta, 29 -, na Sala Cinemateca, a Mostra Falsos Documentários, Como Se Conta Uma Mentira. A curadoria pode até negar, mas não pode ser mera coincidência. Estamos a quatro dias de uma eleição que será decisiva, loucos para mandar embora um governo pautado pelo atraso político, econômico e social. Na área da cultura, e a começar pelo tratamento dispensado à Cinemateca Brasileira, o governo de Jair Bolsonaro adotou o tratamento de matar à míngua, incluindo o episódio constrangedor envolvendo a ex-namoradinha do Brasil. É de domínio público que o capitão se elegeu em 2018 graças a uma articulada campanha de fake news. Portanto, é muita coincidência que a Cinemateca resgate, justamente agora, filmes sobre a arte de contar mentiras. São sete filmes, e eu vou logo contando que não conheço os três primeiros – Procura-se será apresentado, às 20 h, pelo diretor Rica Saito. Na sequência, será mostrados Isto é Spinal Tap, de Rob Reiner, às 21 h, e amanhã, às 18 h, Aconteceu Perto de Sua Casa, de Rémy Belvaux. Pode até ser que sejam bons, e me proponho a conferir, mas as coisas começam a esquentar às 20 h de sexta.

Neste horário, e na área externa – ao ar livre -, o público terá um encontro com Federico Fellini, e Os Palhaços. No sábado, às 18 h, um duplo formado por Terra Sem Pão, de Luís Buñuel, e O Jogo da Guerra, de Peter Watkins, servirá de aquecimento para o maior filme de toda a programação. F for Fake/Verdades e Mentiras, de Orson Welles. De tanto mentir que havia fugido de casa, na infância, para seguir um circo que passava por Rimini, Fellini terminou por acreditar na própria fantasia. Ele reconstitui o episódio na abertura de Os Palhaços. Entrevista lendários proprietários de circo e lá pelas tantas promove o funeral do palhaço. Preste atenção – Nino Rota cria a música fúnebre com trombone. Autoplagiou-se em O Poderoso Chefão, utilizando a mesmíssima partitura.

Conta a lenda que, em 1928, Man Ray pediu emprestado um cinema em Paris para mostrar ao amigo André Breton e a outros surrealistas seu novo filme. Terminada a projeção, o dono do cinema teria pedido licença para mostrar as imagens que havia recebido de dois jovens espanhois. O filme era L’Âge d’Or, com o corte do olho pela navalha e a mão cheia de formigas. Luis Buñuel e Salvador Dalí foram imediatamernte aceitos pelos surrealistas. Fizeram depois Un Chien Andalou. Buñuel – “A massa imbecil considerou belo e poético e o que era um desesperado apelo ao suicídio.” O filme provocou escândalo. Novo escândalo, maior ainda, com Las Hurdes/Tierra sin Pan. A vida miserável numa das regiões mais pobres da Espanha. Um Buñuel realista, documentarista, nas bordas? Há que ver.

Pouca gente fala hoje em dia em Peter Watkins, mas Punishment Park, com seu ataque ao militarismo, e Privilégio, sobre a catedral do rock e o cantor e compositor adorado como ícone, me marcaram muito na juventude. Watkins fez depois a que talvez seja a maior cinebiografia de um pintor – Edward Munch. The War Game/O Jogo da Guerra é anterior a todos. Os efeitos de uma hipotética guerra nuclear na Inglaterra. E, finalmente, Orson Welles. Tem gente que jura que Verdades e Mentiras deve mais ao codiretor François Reichenbach que a ele. A história de Elmyr de Hory, notório falsifcador de quadros famosos, e a de Clifford Irving, que escreveu a fraudulenta biografia de Howard Hughes. O quadro que Pablo Picasso teria feito de Oja Kadar, com quem Welles se casou. O artista como falsário. Orson Welles adorava bancar o mágico. Lembro-me de, naquele ano – 1974 ou 75, quando o filme passou no Brasil -, haver colocado F for Fake entre os meus melhores do ano. Fiquei chapado. Espero que, quase 50 anos depois, a idade lhe caia bem.

A Órfã, A Queda e o vale tudo da luta pela sobrevivência

Entrevistei Marieta Severo na terça à tarde. Querida Marieta! Mais do que admiração tenho carinho por essa mulher. O tema da entrevista era a estreia de Duetto. Hélio Fogaça me pegou no pulo. Quando digitei Antônio Bandeira, no post anterior, senti que estava errado, mas encarnei Macunaíma. Ai que preguiça de pesquisar! Manuel, caraca! Marieta duas ou três vezes na entrevista reclamou da memória. Nomes, datas. Eu, às vezes – muitas vezes -, também me sinto assim. Na sequência da entrevista, por Zoom, fui ver Órfã 2, pretendia emendar com o iraniano Perdão, mas não consegui. Fiquei mais molhado do que pinto, na chuva, e meio pirado, com o filme. Gosto do espanhol Jaume Collet-Serra, mas não me empolguei com o primeiro Órfã. O segundo – a sequência, na verdade, a prequel, A Origem -, mexeu muito mais comigo. Esther, de repente, descobre que tem gente muito pior do que ela, e com mais segredos para ocultar na suposta família. Mamãe? O maninho? E a atração dela por ‘papai’? Se o filme de William Brent Bell fosse brasileiro, seria considerado a metáfora perfeita do País de Jair Bolsonaro. A banda podre da gente de ‘bem’.

Ontem pela manhã assisti, na cabine da Paris, a A Queda. As duas garotas que adoram escalar. Na abertura, há um acidente e o marido de uma delas despenca para a morte. Passa-se quase um ano – 51 semanas – e as duas voltam a escalar. Uma torre de 600 metros no meio do nada, o quarto prédio mais alto dos EUA. Afloram segredos. Haverá outra queda mortal, mas a protagonista conseguirá dar a volta por cima, superando os fantasmas do passado. A relação pai/filha é decisiva na trama, bem como a presença de um par de abutres. Sim, as aves. Na cadeia alimentar, abutres nutrem-se dos restos dos mortos. E se a garota, para sobreviver, tiver de atacar e comer o tal abutre? Como? A Queda possui camadas. E é bem feito. A própria trucagem – a torre, na verdade, parece uma haste. Comecei me perguntando como aquilo foi feito, mas lá pelas tantas já havia esquecido da técnica de tão envolvido na trama. Os segredos que vão sendo desvendados. O cara que nunca dizia I love you, Eu Te Amo, substituindo a frase por números – 143 na tatuagem do filme, no Brasil seria 223.

O próprio título brasileiro – homônimo do clássico de Ruy Guerra (e Nelson Xavier), de 1976, e daqueles últimos dias de Adolf Hitler, lembram? -é intrigante. Duas quedas, mas quem cai, além do marido alpinista? Fui pesquisar quem era o diretor Scott Mann. É um cineasta britânico, que fez filmes como Vingança Entre Assassinos, Bus 657 e Jogada Final. Não li o texto, mas encontrei uma boa chamada – definidora – para o cinema dele. ‘Estréia o novo thriller de sobrevivência de Scott Mann.’ No filme, a garota faz o que é necessário. Equipara-se ao abutre, que, na natureza selvagem, atraído pelo sangue, começa a devorar o bezerro. Embora tenha gostado, estou vendo agora, enquanto escrevo, que as tais ‘camadas’ talvez comprometam nosso verniz civilizatório, esses mesmos que têm sido aviltados no Brasil dos últimos quatro anos.

Consegui, finalmente, assistir a O Perdão ontem à noite. É outro filme peturbador, mas vou deixar para falar dele depois. Estou saindo para uma cabine.

Quebrando Mitos, Duetto e que tudo o mais vá para o inferno

Acabo de assistir a Quebrando Mitos e estou, como se diz, processando o novo doc de Fernando Grostein. Em Vitória, Maria do Rosário Caetano me falou do elogio superlativo de Jorge Furtado, colocando Quebrando Mitos no mesmo patamar de Terra em Transe e Cabra Marcado para Morrer, duas obras essenciais do cinema brasileiro. Achei muito interessante, informativo – o filme está disponibilizado gratuitamente no YouTube -, mas tenho minhas dúvidas quanto à forma, que, nos casos de Glauber e Eduardo Coutinho, só aumenta a complexidade e riqueza das obras. O barroquismo de Glauber, o jogo de cena de Coutinho, que retoma como doc a ficção que fora forçado a abandonar na sequência do golpe cívico/militar de 1964. Quebrando Mitos começa com uma voz perguntando – ‘Você (espectador) já notou como os docs são narrados por uma voz masculina, potente, como se fosse de Deus?’ No caso, Fernando vai logo dizendo que quem narra é ele. Petra Costa também narra os próprios documentários e, em geral, é o que a crítica menos gosta no trabalho dela. Uma questão de timbre, talvez. Eu gosto da honestidade com que ela se expõe – e expõe sua classe social – em Democracia em Vertigem. Não gostei tanto de outro documentário, anterior, sobre sua irmã – Elena. Fernando é gay assumido. Mora com o marido nos EUA. Conta a própria história – como se assumiu – relacionando-a com a masculinidade tóxica do presidente Jair Bolsonaro. Politicamente, é forte, mas daí a colocar no plano de Glauber e Coutinho me parece um pouco demais. Sou mais o Jorge cineasta que o crítico.

Fui ontem à noite à pré-estreia de Duetto, no Cinemark do Shopping Cidade de São Paulo. O diretor Vicente Amorim está nos EUA, Marieta Severo teve contratempos no Rio e não pôde vir. A sessão foi apresentada pela produtora e roteirista Rita Buzzar. Do elenco principal, esteve presente apenas Luisa Arraes. No fim da sessão, saímos para jantar – Anna Luiza Müller, Luisa e Eu. Fomos ao Arábia, onde degustamos as pastas – o mezzé -, mais as saladas e o quibe cru. Anna e Luísa atacaram os doces no final. Luísa é um encanto no filme. Com todo tato fiz uma comparação. Tem gente que fica toda ouriçada, ela se sentiu até lisonjeada. Luísa usa o cabelo curto e solto. É naturalmente intensa. Olhava-a na tela e me veio a imagem da jovem Irène Jacob, que tive o privilégio de conhecer pessoalmente graças a dois filmes de Krzysztof Kieslowski, As Duas Vidas de Véronique – o preferido de Walter Hugo Khouri, senão o filme que ele gostaria de ter feito, a atriz com quem daria tudo para trabalhar – e A Fraternidade É Vermelha, fecho da trilogia das cores do grande autor polonês, após A Liberdade É Azul e A Igualdade É Branca.

Como roteirista e produtora – funções que divide com o filho João Segall em Duetto -, Rita ama as grandes histórias e as estruturas romanescas, basta lembrar de Olga, adaptado do livro de Fernando Morais, e O Tempo e o Vento, baseado no romance cíclico de Erico Verissimo. Rita estava muito emocionada. Ela perdeu a mãe durante a pandemia e Duetto é o primeiro filme da filha – e do neto – que sua mãe não teve tempo de assistir. Putting melos into drama. De cara ocorre uma perda, uma morte e Luisa – a personagem – parte para a Itália com a avó, interpretada por Marieta Severo. Lembrei-me de Viola Davis, quando lhe perguntei sobre a presença do melodrama em A Mulher-Rei. Todos possuímos segredos, me disse Viola, e a família de Duetto é dilacerada por eles. O que afastou Marieta da família italiana, da irmã a quem era tão ligada? Da trama ainda participam um cantor italiano, um órfão – crescidinho – brasileiro – e um ator que, nos anos 1970, se tornou internacionalmente conhecido graças a filmes de Lina Wertmuller e Luchino Visconti, estou falando de Giancarlo Giannini. A história passa-se em Bari, capital da Puglia, região do Sul da Itália que forma o calcanhar da bota. Se entendi direito a locação principal foi em outra cidade da região.

Luisa usa um figurino de verão, mas fazia muito frio. “Só de não tremer durante a gravação das cenas já revela como estava envolvida, na pele da personagem.” Duetto estreia nesta quinta, 29. Possui belíssimas imagens, uma marca do diretor Vicente Amorim – e também de Jayme Monjardim, outro cineasta com quem Rita Buzzar trabalhou. Agora pela manhã, ao acordar, liguei a TV no Bom-Dia São Paulo. Estamos no Setembro Amarelo, o mês de conscientização e tratamento das doenças mentais. Não sei se Cristiano Burlan e Marcélia Cartaxo viram, mas recomendo – está no GloboPlay. Parte da reportagem foi sobre as Mães da Sé, que estão no centro do filme de Cristiano. Uma terapeuta falou sobre a importância da empatia, e o que é isso senão conseguir se colocar no lugar do outro para sentir/entender sua dor? As Mães da Sé choram seus filhos. Achei a reportagem linda, emocionante. Remeteu-me, claro, à falta de empatia do maluco no poder. A profana família.

Volto ao show de Erasmo Carlos, em Vitória, no último dia do TempoLab. Não sou louco de negar o valor do parceiro, o Roberto. É um poeta – lírico, para mim mais Manuel Bandeira que outro nome qualquer. Já escrevi, não se nesse blog, ou no anterior, que o ‘meu’ Roberto é o do disco E Que Tudo o Mais Vá Para o Inferno, na voz de Nara Leão. Roberto virou carola – Jesus cristo, eu estou aqui – e durante muito tempo impediu que se cantasse a música. Ocorre que E Que Tudo o Mais Vá para o Inferno é uma das canções – e discos – emblemáticos da Jovem Guarda. Sempre me perguntei – Roberto ganhou um dinheirão com a música, talvez seja a base de sua fortuna. Para ser coerente, deveria ter tirado essa fatia, com juros e correção monetária, do seu rendimento, encaminhando-a, quem sabe, para caridade. Nunca ouvi que o tenha feito. Religioso, mas nem tanto. Adorei quando Erasmo cantou.

‘Não suporto mais
Você longe de mim
Quero até morrer
Do que viver assim
Só quero que você

‘Me aqueça neste inverno
E que tudo mais
Vá pro inferno.’ No inferno estamos, com todos esses pastores que apoiam Bolsonaro – o filme de Fernando Grostein tem as imagens dessa ligação, acho melhor dizer promiscuidade. Estamos a um passo de reconquistar tudo – o paraíso, a bandeira, o amarelo. A Cidadania, com maiúscula.

Lembrando Louise Fletcher e seu grande papel

Se existe alguma maldição do Oscar, atingiu dois atores de grandes filmes de Milos Forman. Estou falando de Louise Fletcher, que venceu o prêmio de melhor atriz de 1975 por Um Estranho no Ninho, e F. Murray Abraham, melhor ator em 1984, por Amadeus. Nenhum dos dois fez grande coisa depois. Louise até se afastou do cinema para criar os filhos. Morreu na sexta passada, dia 23, em Montdurrausse, no Sul da França, onde vivia há muito tempo. Louise fez muita TV. Estreou no cinema em 1963, em Águias em Alerta, de Delbert Mann, com Rock Hudson e Rod Taylor. Voltou à TV e só onze anos mais tarde retornou ao cinema, como coadjuvante, no Bonnie & Clkyde de Robert Altman – Thieves Like Us, que no Brasil se chamou Renegados Até a Última Rajada. No ano seguinte, fez história integrando a equipe vencedora de Um Estranho no Ninho. Em 1934, 29 anos antes, Frank Capra estabelecera um marco ao vencer o chamado Big Five – os cinco principais prêmios da Academia. Melhor filme, diretor, ator/Clark Gable, atriz/Claudette Colbert e roteiro adaptado/Robert Riskin. Somente décadas mais tarde, quase três, Milos Forman repetiu a façanha e One Flew Over the Cuckoo’s Nest venceu como melhor filme, diretor, ator/Jack Nicholson, atriz/Louise Fletcher e roteiro, também adaptado/Lawrence Hauben e Bo Goldman. Mais 26 anos e outro filme emblemático – O Silêncio dos Inocentes, de Jonathan Demme, ganhou o Big Five de 1991.

A história do rebelde que é internado numa instituição psiquiátrica e entra em choque com a autoritária enfermeira-chefe. Revi o filme há pouco tempo na TV paga. Segue maravilhoso, embora não seja o meu Forman preferido. Na fase checa adoro O Baile dos Bombeiros e Os Amnores de Uma Loira. Na hollywoodiana, Na Época do Ragtime. O final de Um Estranho no Ninho é dos mais belos que existem. O personagem de Jack Nicholson é lobotimizado e fica vegetatitvo, mas sua rebeldia contaminou os demais internos e o Chefe Bromden/Will Sampson consegue transpor os muros e fugir. Louise ganhou os principais prêmios do ano – Oscar, Bafta, Globo de Ouro. De volta à TV foi indicada para não sei quantos Emmys, mas no cinema não fez boas escolhas. O Exorcista II – O Herege é o pior filme da série, mesmo sendo assinado por um diretor prestigiado como John Boorman. Projeto Brainstorm, dirigido pelo técnico de efeitos especiais de 2001 – Douglas Trumbull -, e O Jardim dos Esquecidos, de Deborah Chou, não são muito melhores. Mas a Ratched de Forman é daquelas figuras aterradoras que a gente não esquece. Ela se acha do bem e age pela preservação da ordem, que considera ameaçada por Randle/Nicholson, mas, na verdade, é um monstro. Como personagem, está mais atual do que nunca. Lembra… Quem? É tanta gente no Brasil – lobos em peles de cordeiros, malignos posando de profetas – que a lista ocuparia o post inteiro.

Mas já que estou falando de Forman e seu grande filme, não resisto a citar o elenco de coadjuvantes de Um Estranho no Ninho. Além de Will Sampson, Danny DeVito e Brad Dourif. Na primeira vez que entrevistei Werner Herzog – por No Coração da Montanha, em Veneza, 1991 -, lembro dele dizendo que Brad Dourif era o maior ator do mundo. Herzog até fez outros filmes com ele, mas Brad nunca obteve o reconhecimento defendido pelo autor alemão. Sobre a Ratched, não sabia mas ganhou série da Netflix com Sarah Paulson. Uma prequel, com créditos para Ryan Murphy e Ken Kesey. Como esse morreu há mais de 20 anos, imagino que o crédito seja pela autoria do livro original. Kesey, por sinal, foi ator no filmaço de Forman.

Vitória (6). E Cristiano Burlan fez o rapa, com A Mãe

VITÓRIA – Nos meus 77 anos nunca havia assistido a um show de Erasmo Carlos. O Tremendão abriu a noite de encerramento do Tenda Lab – ontem. O Tenda é uma realização da Galpão, que também promove o Festival de Cinema de Vitória. O festival de música realizou-se este ano na Prainha, em Vila Velha. Na sexta, Silvero Pereira, o Zaqueu de Pantanal – e o Lunga de Bacurau -, fez o seu show. Ontem, Erasmo abriu a festa de arromba, que foi encerrada, de madrugada, por Johnny Hoopker. Erasmo foi glorioso. Aos 81 anos – fui conferir a idade -, domina o público e os amigos que o acompanham no palco. Devolva-me!

‘Rasgue as minhas cartas e
Não me procures mais
Assim será melhor, meu bem

‘O retrato que eu te dei
Se ainda tens, não sei
Mas se tiver, devolva-me

‘Deixe-me sozinho porque assim
Eu viverei em paz
Quero que sejas bem feliz
Junto do seu novo rapaz.’ Encerrou sua participação com um chamamento. “O homem é a doença da Terra. A cura está dentro dele.” E atacou com É Preciso Saber Viver. Cantei até ficar rouco. ‘Toda pedra do caminho você tem de retirar/Numa flor que tem espinhos você pode se arranhar…’ Luiz Zanin só me dizia – “Quem tinha de estar aqui era a Leila.” Leila Reis, nossa amiga, tiete da Jovem Guarda. Entre uma música e outra o público numeroso atacava de Lula lá! Outubro está chegando – dia 2, o próximo domingo. Uma semana! Vamos resolver essa parada logo no primeiro turno para voltarmos a ser felizes. O Festival de Vitória terminou de forma muito civilizada. A extensa premiação -foram 13 mostras – resolveu-se em menos de duas horas. Em Gramado foram quatro (além de atraso)! Cristiano Burlan viveu sua noite de glória. Fez o rapa. A Mãe venceu como melhor filme para os três júris – público, crítica e júri oficial. Cristiano e Marcélia Cartaxo bisaram seus Kikitos – melhor diretor, melhor atriz. Os júris dividiram-se nos curtas – Fantasma Neon, de Leonardo Martinelli, venceu o prêmio do público, Sideral, de Carlos Segundo, o do júri oficial, e Madrugada, de Leonardo da Rosa e Gianluca Cozza, o prêmio da crítica.

Vou terminar o post porque daqui a pouco já sigo para o aeroporto. Bye-bye, Vitória. Até o ano que vem, espero! Hoje à noite terei teatro em São Paulo. E tenho de ver o iraniano Perdão, sobre o qual Maria do Rosário Caetano, com base na crítica de Ivonete Pinto, nossa especialista em Cinema(s) Independente(s), tem me falado maravilhas.

Vitória (5). Reclamão!

VITÓRIA – Não foi uma boa ideia realizar durante a semana os debates dos curtas que participam da competição no 29º Festival de Vitória, deixando o dos longas – todos – para o último dia. Em quase uma hora, só uma intervenção havia sido feita, e apenas um integrante da mesa havia começado a responder. Socorro! Ao ver todo aquele pessoal reunido, dei-me conta do óbvio, na seleção dos filmes da mostra principal, a 12ª competição de longas. (Vitória começou como festival de curtas.) Dos cinco filmes selecionados, dois são documentários – A Mãe de Todas as Lutas, de Susanna Lira, e Germino Pétalas no Asfalto, de Coraci Ruiz e Júlio Matos -, outros dois são ficções – Ursa, de William de Oliveira, e Capitão Astúcia, de Filipe Gontigo -, e o último é um híbrido – A Mãe, de Cristiano Burlan. O mais interessante é que quatro abordam questões familiares, relações que eu, particularmente, gostaria de ter colocado em discussão com os realizadores.

Está sendo – ainda não terminou – um belo e estimulante festival. Mesmo os filmes, curtas e longas, que não me moveram muito propiciaram discussões interessantes, relevantes. Festivais também servem para isso, talvez seja sua principal função. Não é o tapete vermelho – que Vitória nem tem -, mas a instrumentalização e celebração do encontro. Dos diretores com o público, com a imprensa. Adoro! A Mãe de Todas as Lutas traz figuras exponenciais da luta pela floresta, pela questão fundiária. Germino Pétalas segue o processo de mudança de gênero de Jack, que aplica testosterona porque, mais que tudo, quer ter barba, definidora de sua nova identidade. Ursa dá voz à periferia e Capitão Astúcia brinca com a linguagem dos quadrinhos. Só A Mãe daria um debate inteiro. Marcélia Cartaxo como marreteira na Sé, desaparecendo no meio da multidão – filmada com câmera oculta? -, e o plano final, quando a história do desaparecimento do filho se esclarece, filmada de longe, em plano geral, como no desfecho de O Passageiro – Profissão Repórter, de Michelangelo Antonioni.

Precisei vir ao quarto e aproveitei para fazer esse post. Ainda temos de escolher os vencedores do prêmio da crítica e só depois iremos almoçar. Tivemos dias lindos, ensolarados, na capital do Espírito Santo. Hoje, o tempo fechou. Está nublado, cinzento, com vento. Ah! Da janela do meu quarto tenho vista para a baía, o mar e o convento, todo branco, no alto do morro que é uma das atrações turísticas da cidade. Espero voltar para visitar o tal convento.

Vitória (4), terminando. E Meu Sonho de Cinema (27), os trágicos heróis alienados de David Lean

VITÓRIA – Redigi correndo o post anterior, por conta de um passeio que fizemos à tarde. Ao relê-lo, agora pela manhã, descobri que estava cheio de erros de digitação – um problema que me acompanha – e a questão é que, ao corrigir, terminei refazendo parte do post, acho que um parágrafo inteiro. Releiam, por favor. O 29º Festival de Vitória termina neste sábado, 24. Amanhã já estarei voando de volta para São Paulo. Assistimos ontem à última sessão do evento nesse ano. (As sessões da mostra competitiva ocorrem no Teatro Glória, no Centro.) Quatro curtas e um longa, como de hábito. Os curtas – Transviar, Calunga Maior e Uma Paciência Selvagem me Trouxe Até Aqui. Esse último com certeza vai reabrir a discussão sobre o cinema sapatão – a conceituação não é minha -, daqui a pouco. E houve o Carlos Adriano – Sem título #8 – Vai Sobreviver. Anna Karina em Viver a Vida. Foi a primeira sessão pública do filme após a morte – o suicídio – de Jean-Luc Godard. Carlos Adriano abre seu filme com citações – Jacques Derrida. Seleciona basicamente três cenas da obra-prima de Godard – é um dos filmes dele que prefiro, com O Desprezo. Naná dança no bilhar, e Carlos Adriano ressignifica a cena colocando Gloria Gaynor, I’ll Survive – de fundo; Naná chora no cinema, assistindo a O Martírio de Joana D’Arc, de Carl Theodor Dreyer; e o tiroteio no qual ela perde a vida.

Foi uma experiência maravilhosa. Senti-me transportado aos primórdios do cinema. O trem dos irmãos Lumière avançando sobre os espectasdores do Grand Caffé. Havia, com certeza, muita gente que talvez nunca tivesse ido ao cinema. Carlos Adriano estende o tempo. Naná cai, atingida pelos tiros, e levanta várias vezes. “Ela não morre! Que bacana!” Naná, ressignifica, sobrevive. Nós sobreviveremos. Outubro! O último longa da competição foi Capitão Astúcia. Uma espécie de versão masculina e mais extensa do curta Hospital de Brinquedos, que vimos na noite anterior. A garota e a avó, agora o jovem e o avô. Gostei mais do curta, até por ser curto. Teremos hoje aqui um dia agitado. O debate dos curtas de ontem, dos longas de toda a semana, a escolha dfo prêrmio da crítica, que não estava programado e ocorrerá pela primeira vez no âmbito do festival, e finalmente, no almoço, uma moqueca capixaba.

Perdi ontem a data, sexta-feira, correndo de um lado para outro. Era dia de Meu Sonho de Cinema, e estava planejando republicar um texto sobre David Lean, originalmente no tempo do Diário de Notícias, de Porto Alegre. Integra o volume da Coleção Escritos de Cinema, da Prefeitura de Porto. Falamos tanto de David Lean essa semana no blog. O texto é sobre dois de seus épicos – Lawrence da Arábia e Doutor Jivago. Estou pensando se republico agora. Sim? Lá vai.

OS PERDEDORES DE DAVID LEAN E A DEMÊNCIA DO MUNDO, O DESERTO, A NEVE QUE COLOCAM OS HOMENS À PROVA

Esta semana, dois filmes colocam em discussão o fenômeno David Lean: dois filmes da fase atual do cineasta detentor do maior número de Oscars da Academia atribuídos a um realizador (20 prêmios por apenas três filmes, os três últimos de Lean). Se o cinema se estrutura e se dilata no confronto ator-cenário, através do qual é possível distinguir-se dados de uma visão do mundo e postura histórica do artista, então, podemos dizer a propósito de obras como Lawrence da Arábia e Dr. Jivago (também a propósito de outro título recentemente reapresentado: A Ponte do Rio Kway) que o cinema de David Lean observa uma unidade temática e que o cineasta procura colocar em todos os seus filmes, meditações aéreas sobre a alienação do gesto do homem em (nossos) tempos de combate. Para meditar a instabilidade dos gestos de seus personagens, David Lean organiza sempre espaços demenciais, cenários que materializam a loucura do mundo moderno (a guerra em Rio Kwai, o deserto em Lawrence, a revolução e os campos de neve em Jivago), onde se inscrevem homens incapazes de viver a própria história.

Em Rio Kwai e Lawrence, David Lean trata de focalizar as tragédias de homens entre eles. Em Lawrence, projeto mais ambicioso, ao contrário do canto de exaltação do personagem interpretado por Peter O’Toole, David Lean inicia o filme com a morte de Lawrence e reconstrói o passado do personagem em flashbacks que têm quase (ou mesmo) a força de um julgamento, de uma desmistificação. Porque Lawrence, para o leitor comum, bem como para o espectador comum, é um personagem messiânico da história do século 20 – e a David Lean interessa-lhe apanhar a figura com todas as suas contradições, lançar luzes sobre essa personalidade instável e sobre o tempo em que viveu, um tempo de profundas perturbações e transformações na evolução da humanidade. Revelar Lawrence ao público é a palavra de ordem, revelar um personagem atormentado por um desequilíbrio interior – e David Lean escolhe a complexidade de seu herói trágico (ou anti-herói) de um conflito entre a carne e o intelecto do homem que ele encarna, conflito que tem outra dimensão daquela que caracteriza o cinema de Ingmar Bergman, bem entendido. O conflito interior gera a crise do personagem, personagem que vive a dor da solidão, porque nós sabemos, desde o princípio, das tendências homossexuais de Lawrence, personagem que conhece a sua fraqueza, mas que prefere viver perigosamente, até o fim, entre rasgos de coragem e heroicidade, como num desafio a uma necessidade de sua carne. Ser ou não ser homem, eis a questão. Assim, durante a guerra, Lawrence se transforma num grande líder, mas o seu gesto revela a alienação do homem levado a exteriorizar, dessa forma, o seu narcisismo. (A cena vestido de branco, no alto do trem, contra o sol, é vista com estranhamento pelo personagem de Anthony Quinn.) Revela, também, a ausência de consciência de Lawrence, que não percebe até que ponto é dirigido, até que ponto é o emissário (ou sentinela avançada) de um novo imperialismo, afinal não tão novo e que o Alec Guiness coloca com ponderável tristeza em seus diálogos.

Já em Jivago, o problema é outro – e o tema da alienação vem aqui relacionado ao tema da perda da mulher. Logo nos primeiros planos do flashback, que tratam do enterro da mãe de Jivago,  David Lean consegue colocar o problema fundamental do seu personagem: uma alma romântica, um personagem da passividade, que será sempre o filho desamparado na procura de sua mãezinha. É por isso, devido ao seu caráter de filho, que Yuri não participa da realidade (diante do massacre dos grevistas pela polícia tzarista, ele chora e essa será sempre sua reação diante dos acontecimentos dramáticos), é devido ao seu romantismo que ele se isola no seu universo pessoal, que busca o consolo na poesia e se refugia num castelo de gelo, onde a Rainha da Neves, Julie Christie, cumpre a sua dupla função, de mãe e amante. Pasha, a príncipio o poeta desarmado que anuncia a promessa de um paraíso materialmente acessível, viverá perda de dsuas ilusões, da perda da própria ingenuidade – e é esse o sentido que nós descobrimos também na experiência brutal de Lawrence com o bei turco (José Ferrer).

São histórias de perdedores. Pasha vai virar Strelnikov, Lawrence, ferido em seus sentimentos, se revestirá com uma couraça protetora de ódio. Serão revolucionários sangrentos, que desenvolvem uma tendência desequilibrada à agressão, que dirigem até o exterior para destruir os outros e até o interior para destruir a eles mesmos. O desequilíbrio atinge (como forma definitiva) os personagens leanianos – e a passagem deixa um rastro de cidades destruídas, de cenários desfeitos à força do fogo, de mortos empilhados – a realidade dolorosa de uma era de destruição. Por aí, emerge a importância do repórter em Lawrence, do inspetor do partido em Jivago – e são esses personagens realistas, colecionadores de fatos, que colocam o fim de uma lenda ou o fim de um período de estabilidade, de uma longa noite de loucuras a que se segue, em Jivago, a manhã ensolarada, onde se verifica uma abertura para o homem numa sociedade de operários.

Reduzindo o problema àquele do estilo, podem-se fazer considerações sobre a estrutura do plano no cinema de David Lean. E o plano para o realizador, ao contrário do que observa Gordon Douglas, por exemplo, de Rio Conchos e A Última Diligência, é estático, quase (ou mesmo) pictural na sua essência e como resultado disso, as cenas podem tender à monotonia. A análise realmente atenta de Lawrence e Jivago revelará que o primeiro é mais acabado como construção dramática e carpintaria cinematográfica. Lawrence da Arábia é algo assim como um cuidadoso exercício de virtuosismo narrativo, onde o esteticismo de Lean – decadente? – consegue maravilhas, sobretudo, em algumas cenas do deserto, quando o cineasta consegue captar, em todo o seu magnífico esplendor, a agressividade do cenário. Já Doutor Jivago, trata-se de um filme mais frouxo, mais acadêmico, onde o reconhecido apego de Lean à minúcia, ao detalhe, não alcança a extraordinária dimensão observada no ensaio anterior, muito menos a extraordinária dimensão que revela no cinema de Luchino Visconti, esse sim, um raro e grande arquiteto de décor.

De qualquer maneira, aí estão os dois filmes de Lean, autor da velha escola, mas que é um homem que tem uma delicadeza, uma fineza no trato de personagens e situações, que não está no nível de qualquer artesão da Metro ou da Columbia. Isto é quase (ou mesmo) um consolo, na semana que antecede o novo Tony Richardson, que representa a nova geração do cinema britânico. E depois dizem que sou radical….

Diário de Notícias, Porto Alegre, Domingo, 23 abril de 1967

Vitória(3)/Fantasma Neon, Germino Pétalas, um sonho de democracia e liberdade

VITÓRIA – Cá estou, tentando dar conta da quarta noite da Mostra Competitiva de Curtas e Longas. Meu laptop anda me tirando do eixo. Há pouco, abriu uma janela que não conseguia fechar (e cobria metade da tela). A mostra de curtas contemplava um filme de reminiscências (Hospital de Brinquedos, de Georgina Castro), outro que a própria codiretora, Júlia Favero (Como Respirar Fora d’Água), definiu como cinema sapatão, e o terceiro, meu favorito, Fantasma Neon, de Leonardo Martinelli. Às vezes tendo a ser exagerado, ou pelo menos o que as pessoas consideram exagerado. Para mim, e estou me lixando para o que pensam os outros, Fantasma Neon é um dos grandes curtas da história do cinema brasileiro. Um musical sobre entregadores de delivery. O passinho, ecos de Robert Wise e Jerome Robbins (West Side Story/Amor Sublime amor) e da dupla Jacques Démy/Michel Legrand (Os Guarda-Chuvas do Amor e Duas Garotas Românticas). Acima de tudo, meu maior doc brasileiro, Santiago, de João Moreira Salles. A cena que evoca Vincente Minnelli, Roda da Fortuna. Fred Astaire e Cyd Charisse caminham no Central Park. Do nada, ele improvisa um passo de dança e saem os dois, Cyd e ele, dançando. Isso também ocorre no Fantasma. É maravilhoso.

Todos os curtas da noite abordavam questões raciais e sociais. Não apenas. O fator LGBTQIA+. Houve um debate muito interessante sobre o cinema queer e o que seria, é, o cinema sapatão. Trouxe Gustavo Vinagre para o centro da discussão. Para mim, no cinema brasileiro, não se pode falar do assunto sem invocar A Rosa Azul de Novalis. Estou terminando de ler E Fomos Ser Gauche na Vida, de Lelei Teixeira. Lelei e a irmã Marlene, que já morreu, sofriam de nanismo. Cientificamente, trata-se de um transtorno que afeta o crescimento, resultando em pessoas – indivíduos – de baixa estatura. Lelei e Marlene são gaúchas. O que têm de pequenas sobra, ao mesmo tempo, com o fato de serem – Marlene já se foi – grandes profissionais. Lelei nasceu no interior do Rio Grande. A irmã e ela foram para Porto Alegre. Viveram a noite portoalegrense transformadora, a nossa Movida, nos anos 1970. O bairro Bom-Fim, o bar Ocidente. E as personagens. A Nega Lu, três Ps. Preto, puto e pobre.

É um lindo livro. Tira seu título do poema de Drummond. Quando nasci, um anjo torto/Desses que vivem na sombra/Disse – ‘Vai Carlos/Ser gauche na vida.’ E Lelei acrescenta – Fomos!’ Gostei demais de ler o livro. A vida não é fácil para ninguém. Não foi para Marlene, Lelei, nem para mim. Tenho vivido melhor e mais intensamente do que pensava, quando criança. Lelei compartilha essa sensação. As lembranças me voltaram no debate desta manhã. Não fiquei até o fim. Saí para entrevistar… Silvero Pereira! O Lunga de Bacurau, o Zaqueu de Pantanal. Embora ainda tenha cenas da novela para gravar – até 1º -, ele me disse que já gravou o desfecho, e vai ter happy end. Puta cara o Silvero. Olho no olho, nada de nhenhenhem. Vamos sair – nós, os jornalistas de cinema – daqui a pouco para um passeio turístico. Preciso acabar o post. O longa de ontem à noite foi o Germino Pétalas no Asfalto, de Coraci Ruiz e Júlio Matos. Um doc – a dupla não apenas acompanhou como documentou o processo de transição de gênero do filho no quadro do extremo conservadorismo que tomou conta do Brasil, e que levou a nefasta família ao poder. Eu digo. Esse festival está nos permitindo olhar com forte acento crítico – e esperança – para o Brasil democrático e libertário que sonhamos.

Mirada! E o Festival de Vitória (2)/O horror da realidade segue superando o da ficção

VITÓRIA – Apesar da procedência, e aqui estou por conta do 29º Festival de Cinema, o post vai começar pelo teatro. A Extensão Mirada, que está levandfo a São Paulo parte da programação do Festival Íbero-Americana de Artes Cênicas, de Santos, termina neste sábado, 24. Embora esteja adorando o Festival de Vitória, não posso deixar de lamentar tudo o que estou perdenro no Mirada. Se estivesse em São Paulo, com certeza estaria vendo teatro todo dia. Na segunda fui ao Rio no evento de Viola Davis, na terça já estava em Vitória. No domingo, assisti ao espetáculo do Teatro La Plaza, do Peru. Tentei entrevistar a diretora Chela de Ferrari, mas houve um desencontro, confusão de datas, e a entrevista não se realizou. Havia visto, no Santiago a Mil, a montagem que ela fez de Much Ado About Nothing, com elenco totalmente masculino, repetindo a tradição do teatro elizabethano, em que os papeis femininos eram interpretados por atores travestidos. Gostei demais, e fiquei curiosíssimo ao saber que ela estava trazendo ao Brasil sua nova incursão pelo universo shakespeariano.

Pode até ser que Macbeth e Rei Lear sejam melhores e mais perfeitos pelo verso branco, mas creio que Hamlet e Romeu e Julieta não são apenas as peças mais conhecidas do bardo. A primeira talvez resuma sua teatro – Ser ou não Ser. No cinema e no palco assisti a diversos filmes e montagens sobre o tormento que consome o principe da Dinamarca. Vi até uma versão pornô, de um diretor que não consigo identificar, em que Hamlet, com a caveira na mão e o pênis ereto, adapta às circunstâncias o verso imortal – To Fuck or not To Fuck. Chela fez seu Hamlet com um elenco de downianos. Faz todo sentido. No catálogo da Extensão Mirada ela reflete – ‘Historicamente, cidadãos com Síndrome de Down têm sido considerados um fardo, um desperdício social. Que valor e significado têm hoje sua existência em um mundo em que a eficiência, a capacidade de produção e os inatingíveis modelos de consumo e beleza são o paradigma do ser humano.’ Nesse quadro, Ser ou não Ser, Sou ou não Sou, faz todo sentido como questionamento político, além de estético.

Fomos ao Sesc Consolação Marco e a Renata, Orlando Margarido e eu. Encontramos Tuna Dwek, e claro, o Sr. SESC, Danilo Santos de Miranda, o homem que, no Brasil de Jair Bolsonaro, tem sido o baluarte em defesa da cultura, e da cidadania. No final, Danilo soprou-me no ouvido – ‘Que beleza! E nada de pieguice!’ Chela termina seu Hamlet com uma grande celebração, convidando o público a subir ao palco para cantar e dançar com seu elenco. O Hamlet peruano é pop, a trilha é de rap. A celebração é da arte, mas também da vida. Deixei o teatro numa espécie de exaltação. Estamos nesse momento crucial, a dez dias de uma eleição que será decisiva. Embora Bolsonaro fale muito de Deus, Pátria e Família, seu pacto é com o Diabo. Thanatos, a Morte. Em Londres, onde foi fazer comício, ele deve ter sido o único chefe de Estado a ir até a borda do caixão da rainha, para espiar. Tenho medo só de tentar imaginar o que o Sr. Bang-Bang estava pensando. Carlos Adriano tem toda razão. O L de Lula pode virar – é só mudar o eixo – o emblema de disparar, e o clã Bolsonaro não faz outra coisa senão estimular a violência. Outubro será rubro, espero que pela vitória de Lula no primeirto turno, e não pelo sangue que a gangue no poder está louca para derramar.

Estou escrevendo o post passado da meia-noite. Vou deixar para salvar pela manhã. Na verdade, estou reescrevendo. Ao salvar o original, ele sumiu, levando até o rascunho. Havia assistido na quarta à noite a três curtas, incluindo um que celebrava o gênero, e o cinema de gênero, hoje em dia, é o de horror. Lua de Sangue, de Mirela Morgante e Gustavo Senna, é sobre um casal que se embrenha na mata em busca da trilha para chegar ao mirante onde esperam assistir ao eclipse lunar. Embora baseado numa história real, que ocorreu com a própria dupla de diretores, o filme é totalmente ficcional. Na sequência, veio o longa paranaense Ursa, de William Oliveira. Um longa enxutéssimo, de apenas 70 min. Ursa impressionou-me, sem que eu possa definir quanto gostei. A periferia é revelada por meio do ataque de uma cadela da raça pitbull a duas crianças. Mirela possui referências que não são nem um pouco difíceis de identificar. A Bruxa de Blair e a metalinguagem. Lars Von Trier e Melancolia. Mas eu não pude deixar de pensar em Peter Bogdanovich, quando fez Targets/Na Mira da Morte, com produção de Roger Corman, em 1968. O atirador solitário que, localizado atrás da tela do drive-in, dispara nos carros de onde o público assiste a um filme de terror com o lendário Boris Karloff. O horror da realidade, dizia Bogdanovich, supera o horror ingênuo dos filmes. A frase continua válida. A pitbull é dócil com o dono e um monstro com quem mais quer que seja. Uma metáfora do Brasil que queremos enterrar, o da profana família. Lembrando meu amigo poeta Nei Duclós, ‘lento e bruto eu mudo, sei que vem outubro.’

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