Lygia! E o tributo de Carlos Adriano ao cinema, É Tudo Verdade (3). Ressignificar as imagens!

Lygia Fagundes Telles! Demorei para fazer esse post, e até pensei em não fazê-lo, mas seria deselegante ignorar a morte de uma mulher tão batalhadora, além de ser tão grande escritora. Mas me perguntava se não seria considerado metido pelo que vou escrever agora. Tive o privilégio de ser leitor de Lygia e também de ter podido entrevistá-la. Ouvi dela que também era minha leitora, tinha afinidade com o que escrevia. Não representou pouco para mim. Lygia foi casada com Paulo Emílio Salles Gomes, um nome fundamental na atividade crítica e na preservação da memória cinematográfica do País, estando na origem da Cinemateca Brasileira, do Festival de Brasília e dos cursos de cinema da UnB e da USP. Lygia escreveu romances que foram filmados (As Meninas), transformados em novelas (Ciranda de Pedra, duas vezes) e até fez, com Paulo Emílio, a adaptação do Dom Casmurro de Machado de Assis, que virou roteiro de Paulo César Saraceni, por ele filmado como Capitu.

Ela estava beirando os 100, e envelheceu conservando a beleza. Era um daqueles casos em que a beleza exterior me parecia o espelho da interior. Vá em paz, grande dama. Como já relatei no parágrafo anterior, hesitei antes de acrescentar o post. E, agora, pela ligação de Lygia com o cinema, ela me permite falar de Carlos Adriano no É Tudo Verdade. Sempre pensei que o meu Jean-Luc Godard preferido fosse O Desprezo, mas estou em dúvida depois de ver Sem Título # 8 – Vai Sobreviver. Qu’est-ce que le cinéma? Paulo Emílio talvez dissesse que é algum filme de Jean Vigo, ou então obras viscerais do cinema brasileriro, que ele tanto amava. No domingo eu tive uma revelação vendo o Carlos Adriano. O cinema é o rosto luminoso de Anna Karina, as lágrimas escorrendo, quando Naná assiste a O Martírio de Joana D’Arc, projetando-se na heroína de Carl Theodor Dreyer e sem se dar conta da própria miséria humana em Viver a Vida.

(Lembrei-me de algo que Elia Kazan contava. Ele estava feliz da vida com determinada cena de seu segundo longa, Mar Verde, em que Katharine Hepburn chorava. Depois, ele descobriu que ela chorava à toa e que tinha de lhe pedir ‘Menos, menos’, mas naquela cena Kate arrasava. O executivo do estúdio, acho que era Darryl Zanuck – não estou encontrando o livro -, mandou que refilmasse. ‘Como, por quê?’ Sua justificativa – “As lágrimas não estavam escorrendo direito!”) Carlos Adriano seleciona poucas cenas de Vivre Sa Vie. Naná colocando o disco na máquina e dançando so redor da mesa em que o rapaz joga sinuca. Naná chorando, e Naná morrendo no tiroteio. A repetição das cenas, a sua desconstrução e reconstrução por meio da montagem, e de efeitos de cor e luz. Godard, o grande revolucionário da linguagem, ou será Carlos Adriano?

Calma, amigos, não fiquem nervosos. Sem Título # 8 abre-se com citações de Derrida sobre a poesia. O Vai Sobreviver refere-se à trilha de Gloria Gaynor, que não é a do filme. I’ll Survive foi gravada em 1978, Viver a Vida é de 1962. At first I was afraid, I was petrified/But then I spent so many nights thinking how you did me wrong/And I grew strong. Isso não é uma música. É um hino, um manual de sobrevência. Carlos Adriano tem outro filme na competição do 27º É Tudo Verdade, Tekoha, e nesse outro as citações iniciais são de Ailton Krenak. Os povos originários. As imagens repetidas, desconstruídas e ressignificadas, são de um fato ocorrido em setembro do ano passado, quando pistoleiros queimaram uma casa Guarani Kaiowá, numa área de retomada, na reserva de Dourados, MS. A ação foi registrada em vídeo, num único plano de quatro frames e 2’52” de duração. Como no seu já clássico Remanescências, Carlos Adriano estende esse material num curta investigativo da linguagem – e da questão indígena no Brasil -, que dura 13 minutos. Nunca digo que o cinema deve ser isso, ou aquilo. O que me encanta é a diversidade. O que me toca é também o que me estimula, seja Morbius, Tre Piani ou os curtas de Carlos Adriano.

Sobre Anna Karina, repito o que já contei no blog anterior, quando ela morreu, em 14 de dezembro de 2019, aos 79 anos. Como Lygia, tive o privilégio de entrevistar Anna Karina quando veio ao Brasil. Uma entrevista de carreira, feita no Rio. Fiquei um tempão conversando com ela. Godard, Michel Deville, Luchino Visconti, Jacques Rivette, George Cukor, Guy Green. Não me lembro a data, mas a segunda vez foi em Paris. O Champô apresentava o filme que ela dirigiu e seria seguido de um bate-papo. Abri mão de rever Vivre Ensemble para seguir Anna, que atravessou a rua e sentou-se no café em frente, na Rue des Écoles. Ela pediu um café, eu, numa mesa próxima, tomei um Americano Maison. Fiquei quase duas horas olhando aquela mulher fumar, revirar sua bolsa, fazer anotações (no guardanapo) com a caneta que pediu ao garçon, olhar para o movimento na rua. Acho que foi por isso que gostei tanto de Como Eu Era Antes de Você, o filme que Thea Sharrock adaptou de Jojo Moyes, com Sam Claffin e Emilia Clarke. A definição de felicidade daquele cara. Ficar sentado num café, em Paris, ao entardecer, vendo a vida passar. A solidão não me apavora, tem seu encanto. Em tempo – Sem Título # 8 estará disponível na plataforma do ETV dia 10, a partir das 19 h, por 24 horas.

Autor: Luiz Carlos Merten

jornalista

3 comentários em “Lygia! E o tributo de Carlos Adriano ao cinema, É Tudo Verdade (3). Ressignificar as imagens!”

  1. Para uns a idéia de felicidade é sentar em um Café em Paris e observar o movimento já para mim sentar na Marina da Glória é sublime mas também pode ser no centro do Rio em alguma daquelas travessas da Rio Branco …

    Curtir

  2. Não mencionar a querida Lygia não seria só uma deselegância. Seria imperdoável. Entre todos os escritores, a minha mais amada. Grande escritora, uma personalidade deliciosa. Também tive/tenho o privilégio de ser seu leitor, e de ter conversado com ela algumas vezes. É, a literatura e o mundo ficaram infinitamente mais pobres ontem.
    Lygia foi pouco feliz no audiovisual. As Meninas resultou numa filme horrível. A própria Lygia não escondia o desagrado (não acredito que com o David Neves teria sido melhor). As duas adaptações de Ciranda de Pedra pouco tinha a ver com o romance. Viraram bobagens cor-de-rosa para o horário das seis da Globo. Khouri teria sido um bom diretor para uma versão para o cinema de uma obra da autora. Luiz Fernando Carvalho? Possivelmente, haja vista o seu viscontiano Os Maias, um Eça memorável da Globo. As atmosferas rarefeitas da Lygia, definitivamente, não são para qualquer um.
    Ela presidiu a Cinemateca, você esqueceu de mencionar.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie seu site com o WordPress.com
Comece agora
%d blogueiros gostam disto: