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Cine PE (4). Canto, dança e a oralidade roseana

RECIFE – Quero muito fazer um post sobre a retrospectiva de Ozualdo Candeias na Cinemateca Brasileira, mas será o próximo. Agora quero falar da terceira e quarta noites do Cine PE/Festival do Audiovisual – a quarta que não houve. O festival deste an o está/estava rolando em dois espaços da cidade, o Cine São Luiz e o Teatro do Parque, duas salas belíssimas, de rua. O São Luiz está passando por um processo de restauro. A organização do festival pôde contar com o espaço somente no sábado e domingo, e mesmo assim com metade da ocupação da sala (mais o mezanino). Sempre que piso no São Luiz me lembro do antigo Cinema Cacique, em Porto Alegre. O São Luiz tem dois vitrais, um de cada lado do palco, representando vasos de flores, uma coisa bem art déco. No Cacique, havia de cada lado da tela um gigantesco mural de Glauco Rodrigues, justamente resgatando a herança indígena do Rio Grande. É uma coisa que sempre me pergunto. O que terá ocorrido com aqueles painéis? Estarão preservados?

Volto ao Cine PE. Uma queda de energia na área central do Recife produziu um dano irreparável no sistema de projeção do Teatro do Parque. A sessão de segunda à noite foi cancelada e ocorrerá hoje à noite num terceiro espaço que foi arranjado às pressas. Pelo que entendi, é um cinema vertical localizado no 16º andar de um prédio também do Centro. O grande problema é a dimensão da sala, bem menor do que a do São Luiz e a do Teatro do Parque. A programação de segunda, com alguns ajustes, passou para hoje, a de hoje para amanhã e o encerramento, com a premiação, que seria na quarta, 14, ficou… para o ano que vem! Não será a primeira vez que isso ocorre no Cine PE. O festival de 2020 foi virtual e a premiação – presencial – ocorreu em 2021. Saberemos quem venceu, mas os troféus só serão entregues em 2023.

Quero falar da terceira noite do Cine PE – dos curtas. Se na primeira noite da competição do formato os filmes celebravam a palavra – e a ressignificação de narrativas do povo preto -, a terceira foi dedicada à música e à fisicalidade. Dos seis curtas, um já havia assistido e verei sempre que tiver oportunidade. Há algo em Fantasma Neon que me encanta profundamente. Reencontrei o diretor Leonardo Martinelli, que me agradeceu pelo carinho com o filme dele. Quem agradece sou eu. Fantasma Neon integra a retrospectiva do cinema brasileiro no Cinesesc. Vem do Rio. O entregador de aplicativo que dá duro sonhando com uma moto. O cinema de gênero – musical. Quando Dennis Pinheiro, o ator que faz o papel, ensaia os primeiros passos de dança, algo mágico ocorre. O filme en-cantado. Impossível não pensar em Os Guarda Chuvas do Amor, de Jacques Demy (e Michel Legrand). E – claro – Fred Astaire e Cyd Charisse em Band Wagon, de Vincente Minnelli. Em Santiago, o deslumbrante doc de João Moreira Salles, é o filme dentro do filme, o preferido do mordomo. Fred e Cyd caminham no Central Park e, de repente, estão dançando. A Roda da Fortuna!

O cinema é uma coisa maravilhosa. Vibrei com outro curta, Desejo e Necessidade, de Milso Roberto, da Paraíba, que transporta o espetáculo A Feira, da dramaturga Lourdes Ramalho, para a feira de Campina Grande. A mãe e o casal de filhos. As disputas entre os irmãos – a dança. Encantou-me também o operístico O Último Dia, do pernambucano Armando Lobo. Ópera, gente. O trio de carpideiras que chora a morte de um ícone da cultura popular. Esses três filmes possuem camadas que me fizeram sonhar. Surpreenderam-me. Revi Fantasma Neon com o mesmo impacto da primeira vez. Isso só ocorre com as obras que estão no meu panteão, os filmes que amo incondicionalmente. Saímos ontem para beber no Centro do Recife, num bar sugestivamente chamado de Boi Neon. A própria noite foi mágica. Um grupo grande – enorme. Não me lembro de outro festival brasileiro que me proporcione esse convívio. Neusinha, Vitor, Ismaelino, Robledo. Estou esquecendo nomes, havia mais gente. Estavam sentados à minha esquerda. À minha direita, o trio de realizadores/autores do longa mineiro Gerais da Pedra.

Paulo Júnior, Gabriel Oliveira, Diego Zanotti. Os três conheceram-se durante uma caminhada pelas veredas do grande sertão de Guimarães Rosa. Nem sabia que esse evento existe, e ocorre em junho/julho. A caminhada gerou o desejo de um filme. O audiovisual brasileiro já tentou, e mais de uma vez, elucidar o mistério dos olhos de ressaca de Capitu. Os rapazes de Gerais da Pedra vão atrás de outro enigma – Diadorim. Visitam lugares, entrevistam pessoas. Resgatam a oralidade mineira, e roseana, que tanto me fascina. É um trabalho lindo. Meu sonho, como jornalista de cinema – de cultura -, é agregar. Bia Lessa filmou a montagem dela de Grande Sertão, da qual nem gosto tanto. Bia cariocou a mineiridade de Rosa. Guel Arraes e Jorge Furtado transpuseram as veredas roseanas para uma comunidade do Rio. Gostaria tanto de juntar Paulo, Gabriel, Diego, Bia, Jorge e Guel. Que todos esses experimentos roseanos virassem uma coisa só para fazer de 2023, no Brasil de Lula, esse Brasil que haveremos de reconquistar, o grande ano de Guimarães Rosa no cinema brasileiro.

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Autor: Luiz Carlos Merten

jornalista

2 comentários em “Cine PE (4). Canto, dança e a oralidade roseana”

  1. Caro Merten
    Inesquecível, e inimaginável hoje em dia, Cine Cacique e seus mais de mil lugares. Aquela obra era magnífica.Tudo era imenso ali. Houve um incêndio no prédio e provalvemente devem ter sido destruídos. No local funcionou um supermercado e um bingo. O artista não era o Glauco Rodrigues?

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  2. Viva o cinema! Que boa experiência meu amigo. PS: Ah, como amo e está no meu panteão: “Os Guarda Chuvas do Amor, de Jacques Demy”. Já vi várias vezes (eu que evito rever filmes)… O melhor foi apresentar para meu filho na tela grande. Ele adorou.

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