Sirmar e o cinema épico de Tabajara Ruas. Spielberg, por Truffaut. E a minha revisão de Michael Powell

Morreu em Porto Alegre o ator gaúcho Sirmar Antunes. Fui pesquisar e encontrei dados controversos em relação à idade, 66 ou 67 anos, até 68. Sirmar veio do teatro e, inclusive, em São Paulo, na Casa Aberta Leide das Neves, trabalhou como voluntário, tornando-se arte-educador para jovens de baixa renda, ministrando aulas de representação. Sirmar fez muitos filmes, mas quero destacar O Dia em Que Dorival Encarou a Guarda, cultuado curta de José Pedro Goulart e Jorge Furtado, baseado num texto de Tabajara Ruas. Para o próprio Tabajara, interpretou Netto Perde Sua Alma, Netto e o Domador de Cavalos, Senhores da Guerra e A Cabeça de Gumercindo Saraiva. Virou um ator épico. Tinha físico de boxeador e alma de passarinho. A questão da negritude foi forte na República Rio-Grandense. Sempre me emocionou muito a bandeira farroupilha esfarrada como o sonho de liberdade, em Netto Perde Sua Alma. Tabajara, que foi meu colega na Faculdade de Arquitetura, é fordiano como eu. Não sei se também é o olhar dele, mas é o meu. Sirmar talvez tenha sido o Juano Hernandez – Audazes e Malditos – do cinema brasileiro. Vai em paz, amigo.

A propósito do post anterior, Douglaspizza, nos comentários, considera o diretor de E.T. piegas e Wilhelm Meiners, que nunca comentou nada por aqui, lança uma provocação, não sem antes errar meu nome, Marten. É o de menos. Larga a TV e vem para o escurinho do cinema, ele pede. Não conheço jornalista de cinema que frequente mais as salas do que eu. Como anunciei que ia ao teatro, à noite – Saudade, texto do também ator Clovys Torres no Viradalata -, Wilhelm pergunta: o que o teatro tem melhor do que a Festa do Cinema Italiano? Às vezes tem, Wilhelm, às vezes tem, mas realmente não tenho visto nada melhor do que Elvis e Il Buco. Seja como for, ainda sobre Steven Spielberg, lembrei-me de um texto de François Truffaut na antologia Le Plaisir des Yeux, que saiu pela Flammarion em 1987, três anos após sua morte. O Prazer dos Olhos – a seleção de textos e a apresentação são de Jean Narboni e Serge Toubiana.

Um dos textos, justamente de 1984, foi escrito por Truffaut para servir de prefácio ao livro de Tony Crawley, L’Aventure Spielberg, das edições Pygmalion. Integra o primeiro bloco – O Cinema na Primeira Pessoa. En Tournant pour Spielberg. Filmando não propriamente com, mas para Steven Spielberg. Truffaut conta como recebeu o telefonema de Spielberg convidando-o para o papel do cientista francês Lacombe em Contatos Imediatos do Terceiro Grau. Estava entre filmes, sem a perspectiva imediata de rodar o próximo – O Homem Que Amava as Mulheres – e topou. Fala de sua admiração por Spielberg. Prometeu a si mesmo que seria o ator ideal, submisso aos desejos do diretor. Nunca deu uma ideia, nem fez a menor observação crítica. Truffaut tampouco lhe dava informações precisas. No final de cada tomada, Truffaut olhava para ele em busca de aprovação. Lá com seus botões, duvidava de certas escolhas de Spielberg no set. Achava que não dariam certo. Surpreendeu-se ao ver o filme – como o Contatos Imediatos de Spielberg era melhor do que teria sido o dele.

Truffaut dizia, de Alfred Hitchcock, que filmava as cenas de amor como se fossem crimes, e as de crimes como se fossem de amor. Sobre Spielberg, refaz a sentença – diz que ele filma as cenas fantásticas como se fossem cotidianas, e as cotidianas como se fossem fantásticas. Conta uma história que achei muito interessante. Spielberg queria nuvens de uma textura especial. Douglas Trumbull, que assinava os efeitos – depois de trabalhar com Stanley Kubrick, em 2001 -, diluiu galões de tinta banca numa piscina transparente de água morna e, dessa forma, criou as nuvens que o diretor queria. Engenhoso, não? A par desse texto, reli com imenso prazer o tributo de Truffaut ao amigo Philippe De Broca, que, quem me acompanha, sabe que amo. Também gostei de outro texto sobre Pierre Kast, que, no geral, nunca teve o favor da crítica brasileira. O texto elogioso de Truffaut sobre o diretor de Os Sóis da Ilha de Páscoa, A Nudez de Alexandra e Le Soleil en Face chama-se Simples como Um Adeus. Terá sido escolhido por Narboni e Toubiana, ou foi uma premonição de Truffaut? Pierre Kast morreu no mesmo dia que ele, e face à comoção provocada pela morte de François, a dele passou despercebida. Essas histórias mexem comigo.

Não pude ver ontem Teorema, como pretendia, porque a sessão no Cinesesc era às 18h30 e eu não teria tempo de correr ao Teatro Viradalata para ver a peça de Clovys Torres – Saudade É Uma Brecha no Tempo -, que começava às 20h30. Aproveitei a tarde para fazer um programa duplo de Michael Powell (e Emeric Pressburger) na MUBI -The Small Back Room e Os Contos de Hoffmann, de 1949 e 51. O segundo, especialmente, goza de imensa reputação pelos que, como Martin Scorsese, cultuam o cinema de Powell. Achei o primeiro mais interessante. O oficial, especialista em explosivos, que enfrenta a burocracia do governo, ao mesmo tempo que vive intensa crise pessoal. Tem uma perna mecânica que, para ele, o diminui aos olhos da mulher amada – não pode dançar -, e está tendo problemas com bebida. Uma garrafa de uísque adquire proporções descomunais, que o oprimem. Entre a realidade e o artifício, Contos de Hoffmann, baseado na obra de Offenbach, é puro artifício. A Lola Montès de Powell e Pressburger?

Confesso que não me entusiasmei, nem um pouco. Robert Rounseville faz o poeta, Robert Helpmann faz seu oponente nas três histórias, três retratos de mulheres, que compõem a narrativa. Helpmann foi ator, bailarino, coreógrafo, diretor de teatro. É afetadíssimo, para dizer-se o mínimo. Confesso que fiquei com saudades de Nicholas Ray – 55 Dias de Pequim. A revolta dos boxers, na China, sitiando as embaixadas e os diplomatas estrangeiros. Nos transformadores anos 1960, o filme foi criticado como antirrevolucionário. Ray e seus roteiristas – Philip Yordan e Ben Barzman – propõem saídas individuais para a luta anticolonialista. Face ao estado atual do mundo, não sei se, na verdade, não estavam sendo premonitórios. O sonho de esquerda não se realizou (mas ainda temos tempo).

O que Robert Helpmann tem a ver com isso? Ele faz o príncipe Tuan, que lidera os Boxers. Flora Robson é a imperatriz. Usam aquelas unhas longas de metal, movem-se como num balé. Nicholas Ray dizia que o cinema é a melodia do olhar. Como janela da alma, o olhar revela a interioridade dos personagens, mas nesse caso o fluxo do olhar conduz a montagem das cenas iniciais. São deslumbrantes. Charlton Heston, Ava Gardner e David Niven são os protagonistas, mas eu, nas ‘n’ vezes que vi o filme, nunca consegui desgrudar o olho de Helpmann e Flora. São magnéticos. Ela veste o figurino digno de uma imperatriz chinesa. No final, a câmera num plongê esmagador, Flora usa roupas de camponesa e balbucia – “A dinastia está acabada, a dinastia está acabada.” O próprio Ray reservou-se um papel. É o embaixador preso à cadeira de rodas – para mostrar que o produtor Samuel Bronston não o deixou livre para fazer o filme como queria?

Autor: Luiz Carlos Merten

jornalista

Uma consideração sobre “Sirmar e o cinema épico de Tabajara Ruas. Spielberg, por Truffaut. E a minha revisão de Michael Powell”

  1. Amigo, esses diálogos são fantásticos! Ontem, fui ao cinema com minha família. Eles escolheram Trem-Bala. Queria ver Elvis. Acabei cedendo e fui com eles, Trem-Bala. Meu Deus! Te juro… pensei: “seja humilde. O Merten viu este filme. O cara é fera. Ele vê bomba também”… qual minha surpresa? Já está na parede da memória afetiva minha tarde de cinema (olha eu sendo piegas, urrr!). Te lendo aqui, pensando em Truffaut… já são minhas (boas) influências…. Obrigado!

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