Blonde!

Estou realmente confuso. Desde 1972, quando estava na Folha da Manhã e escrevi meu primeiro texto sobre a morte de Marilyn Monroe – eram os dez anos -, a data era 5 de agosto. Tenho três enciclopédias de cinema em casa. As três registram a mesma data – 5 de agosto. Não sei a partir de que momento a data mudou para 4, e portanto nesta quinta-feira é tempo de lembrar a grande estrela, nos 60 anos de sua morte. 60! Como havia ocorrido com James Dean, a morte prematura dele – num acidente de carro, em 1955 – eternizou no imaginário do público a figura de um James Dean eternamente jovem, o perfeito representante da juventude transviada de seu tempo. Também não acompanhamos o envelhecimento de Marilyn. Ela morreu no auge, aos 36 anos. Era o objeto de desejo de todos machos do planeta. Sexy, loira, linda. Mas toda aquela aura talvez tenha sido muito mais um carma para ela.

Já escrevi mil vezes que Greta Garbo foi a mais perfeita encarnação da star nos anos dourados de Hollywood. Garbo era misteriosa e inatingível, uma esfinge aos olhos do público. Teve seu apogeu nos anos 1930. Cerca de 40 anos mais tarde, nos 70, Jane Fonda inaugurou uma outra era em Hollywood. A estrela humana, participativa. Jane foi para as ruas protestar contra a Guerra do Vietnã. Visitou Saigon, em apoio dos norte-vietnamitas, e voltou aos EUA usando o chapeuzinho cônico, e icônico, dos viecongs. Hanoi Jane! Intermediária, nos anos 1950, Marilyn marcou a transição. Hollywood – leia-se a Fox de Darryl Zanuck – recusou-se quanto pôde a reconhecê-la como estrela. Marilyn havia posado nua para aquele calendário. The lady is a tramp – era, para o puritanismo norte-americano. Depois de O Pecado Mora ao Lado, de Billy Wilder, 1955, o público levou-a ao pódio. Não dava mais para segurar o estouro de Marilyn.

Em 1956, Nunca Fui Santa/Bus Stop, de Joshua Logan, mostrou que a ícone do sexo – a deusa – era também uma verdadeira atriz. Ficava para trás o incidente com Bette Davis, no set de A Malvada/All About Eve, de Joseph L. Mankiewicz, de 1950. Marilyn já havia feito pequenos papeis, aquele não era muito maior, mas era mais importante. Sua personagem é uma aspirante a atriz – formada numa tal Academia de Arte Dramática Copacabana. Encontra a lendária Bette, como Margo Channing, no hall do teatro, cujos bastidores o filme disseca. A cena não era complicada, mas Marilyn, talvez intimidada, errava o texto. Na 11ª tentativa, Bette não aguentou. Berrou com ela – ‘Concentre-se, menina! Quem você pensa que é?’ Era Marilyn. A câmera a amava. Era o que dizia Billy Wilder, que teve de repetir uma cena de Quanto Mais Quente Melhor dezenas de vezes. Marilyn atrasava-se, deixava a equipe toda esperando, errava as falas. Nada disso importava. Na tela, era deslumbrante.

O ano decisivo foi 1950, quando, além de A Malvada, apareceu também em O Segredo das Joias/Asphalt Jungle, de John Huston – dois clássicos. Ela começou a ganhar papeis cada vez maiores. Dois precisam ser citados. Em Almas Desesperadas/Don’t Bother To Knock, de Roy Ward Baker, de 1952, fazia uma babá emocionalmente instável. Para o diretor, tornou-se impossível separar as coisas. A loucura da personagem era também da atriz. No ano seguinte, em Torrentes de Paixão/Niagara, de Henry Hathaway, ela fazia mulher que queria se ver livre do marido, nem que tivesse de matá-lo. O fundo das cataratas, toda aquela água que não podia ser represada, virou metáfora da sexualidade, também irreprimível, da estrela. Sexo, sexo, sexo. Mas Marilyn queria ser reconhecida como atriz. O casamento com o dramaturgo Arthur Miller deu-lhe, por um momento, a respeitabilidade que almejava. Marilyn foi estudar representação no Actor’s Studio, Miller escreveu The Misfits para ela.

No filme que John Huston realizou em 1961, e se chamou Os Desajustados no Brasil, Marilyn faz Roslyn, que desembarca em Reno para um divórcio rápido e se vê no deserto de Nevada com um grupo de domadores de cavalos selvagens. Os animais resistem, como Marilyn. Ela também era indomável. Foi o último papel da estrela, e também o último de Clark Gable. Marilyn morreria naquela noite, 4 ou 5, no ano seguinte, deixando inacabado Something’s Gotta Give, dirigido por George Cukor, com quem havia feito Adorável Pecadora. Lembram-se? Let’s Make Love. O milionário Yves Montand será tema de um espetáculo musical. Resolve tomar aulas – de canto, dança e representação – para impressionar a corista Marilyn. Ela aproveita as horas vagas na coxia para tricotar um pulôver que nunca acaba. Canta My Heart Belongs To Daddy.

Dia 5 ou 6? O corpo só foi descoberto no dia seguinte. Quando a encontraram morta – o horário presumível foi determinado pela rigidez do cadáver -, um frasco vazio de barbitúricos ao lado da cama alimentou a versão oficial de suicídio. Mas a teoria da conspiração nunca foi descartada. Depois que cantou para ele, deitada sobre o piano e com aquele vestido transparente de pedrarias, Happy Birthday, Mr. President, Marilyn teve um affair com John F. Kennedy. Na época, estaria tendo outro caso, com um mafioso. Sempre existiram relatos de que seria – era – ninfomaníaca. Todo mundo, da Casa Branca à Máfia, tinha motivos para desejar sua morte. Muita coincidência que tenha ocorrido, se bem que ela atravessava, na vida e na carreira, um momento de estresse. Marilyn nunca deixou de assombrar o público, a indústria. Virou emblema do machismo e do abuso nas estruturas de poder do cinemão.

Volta e meia surgem filmes sobre ela. Agora mesmo, Blonde, de Andrew Dominik, com Ana de Armas, adaptado do romance de Joyce Carol Oates, deve estrear em setembro no Festival de Cinema Norte-americano de Deauville, na França. Livro e filme especulam sobre a vida privada de Marilyn e a sua transformação em sex symbol. E já tem gente garantindo que Ana irá para o Oscar do ano que vem. Já pensaram? Marilyn/Ana e Elvis/Austin Butler entre os indicados? Espero que não me interpretem mal. Marilyn não foi a melhor atriz, nem a mulher mais bela, mais sexy. Só para registrar, contemporânea dela, houve Brigitte Bardot, que era mais jovem, numa sociedade tradicionalmente mais desinibida, como a francesa. A própria Brigitte também mostrou que podia representar – em A Verdade, de Henri-Georges Clouzot – e estrelou o que, para mim, é o maior de todos os filmes de Jean-Luc Godard, O Desprezo. A jovem Brigitte era ‘natural’. Marilyn, num certo sentido, foi fabricada.

Era Norma Jean Baker, transformou-se, ou foi transformada, em Marilyn. Não era aquela loirice, nariz, dentes, tudo foi sendo reconstruído. Mas tinha a essência, o X factor. Virou mito. Justamente quando adquiriu esse status, sua insatisfação, a solidão fizeram dela a misfit que Arthur Miller retratou como Roslyn. A relação difícil, quase impossível com a máquina hollywoodiana, fez dela uma figura singular – trágica. Daqui a 40 anos, no centenário de sua morte – e se ainda houver cinema, claro -, as pessoas continuarão discutindo a persona de Marilyn Monroe.

Autor: Luiz Carlos Merten

jornalista

Uma consideração sobre “Blonde!”

  1. Estava curtindo o post… até você vaticinar: “Daqui a 40 anos, no centenário de sua morte – e se ainda houver cinema, claro”… Poxa…

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