É Tudo Verdade (7). Chegando a premiação, mas antes o Rithy Panh. O vento no cinema de Marina Weiss e Laura Faerman. E o meu tributo tardio a Mazzaropi

Assisti – assistimos, Orlando Margarido, Marcos Fernando e eu – ao filme surpresa do É Tudo Verdade e, na sequência, fomos jantar, no Arábia. Foi o que restou de uma longa história, o gosto pela comida árabe. O filme era Tudo Vai Dar Certo, de Rithy Panh, premiado na Berlinale. Rithy adquiriu status de grande autor documentarista com sua obra de denúncia das atrocidades do regime de Pol Pot, no Camboja. Dessa vez não é só o Camboja. Narrado como conto para crianças – e adultos -, o filme utiliza a técnica de bonecos. Como se faz aquilo? Fiquei chapado. Ainda não tive tempo de fazer nenhuma busca, mas vou ver se encontro alguma coisa sobre o making of, quem sabe no próprio site do Festival de Berlim. No fim da tarde ocorre a premiação do É Tudo Verdade. Sigo torcendo por Carlos Adriano, José Joffily e Marcos Pimentel, mas agora tem também a Heloisa Passos na competição brasileira, a que me interessa. Na sequência da premiação, ocorrerá a sessão que seria de encerramento – O Território, de Alex Pritz e Tangai Uru Eu-wai-wai, coprodução brasileiro-dinamarquesa -, mas o festival continuará online por mais alguns dias, só ainda não sei com que programação.

Tenho ido às sessões do Foco Latino e do Estado das Coisas, no Sesc 24 de Maio. Assisti ontem a Vento na Fronteira, de Marina Weiss e Laura Faerman. Hoje pretendo assistir, às 3 da tarde, a Quem Tem Medo?, de Ricardo Alves Jr., Dellani Lima e Henrique Zanoni. O vento ultrapassa a trilha sonora no longa de Marina e Laura, vira um personagem mítico. Lembrei-me de José Martinez de Hoyos em Sete Homens e Um Destino, o original de 1960, de John Sturges, explicando como os camponeses se ligam à terra, criando raízes e os pistoleiros são o vento, que sopra e passa, às vezes modificando a paisagem, mas sem se identificar com, nem se ligar a ela. O vento fornece a dimensão mítica – onírica? – aos indígenas que disputam o território de seus ancestrais. Do outro lado, o latifúndio. Imagens de arquivo mostram Jair Bolsonaro dizendo que, no governo dele, não haveria um centímetro de demarcação pró-povos originários. Duas mulheres, a representante dos indígenas e a do latifúndio.

A par do John Sturges, me veio o Terras do Sem Fim, de Jorge Amado. Os grandes proprietários das fazendas de cacau avançando sobre as terras dos outros, fazendo todas aquelas escrituras fajutas, forjadas. A luta épica pela terra. O proprietário que diz que nunca viu um indígena ali, e eles estão há séculos naquelas terras. Quem cuida delas, quem as destrói? Abri meu laptop para acrescentar esse post e a primeira coisa que veio foi uma chamada de Bolsonaro ironizando a Lei Paulo Gustavo. Cambada de ignorantes! Mudando um pouco o tom, tenho visto links de filmes que estão sendo lançados pela MUBI no streaming. Nunca havia visto Os Amantes do Círculo Polar, de Julio Medem. A história de Otto e Ana, os dois nomes são palíndromos. Encerrado o É Tudo Verdade, já disse que quero voltar ao teatro e aos ‘clássicos’. A MUBI está lançando A Trilogia do Amor de Philippe Garrel, As Paixões de Pasolini (e o filme da vez é Pocilga), além do Medem. Conhecia Vacas e Lucía e o Sexo, mas Os Amantes tirou meu chão.

Queria ter contado ontem, nos 110 anos de Mazzaropi, a história que vou relatar agora. Quando garoto, em Porto Alegre, morava no bairro Auxiliadora. Pegava o bonde para ir ao Centro, onde ficava o Júlio de Castilhos, colégio no qual, na época, fiz o Ginásio e o Científico. (Chamavam-se assim.) Aos 11/12 anos já circulava com desenvoltura pela área central da cidade. Ia muito ao cinema. Era capaz de passar fome, desviando o dinheiro da merenda para pagar a entrada do cinema. O Vitória, na Borges de Medeiros, a um passo do que virou depois a Esquina Democrática, era uma sala popular. Lá eu via a produção da Paramount, as comédias de/ou com Jerry Lewis, os filmes espanhóis com a meninada prodígio (Joselito, Marisol, Pablito Calvo) e também os romances de Sissi e Sara Montiel. Ah, sim, e toda a saga de cangaceiros do Carlos Coimbra, que depois biografei na Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial.

Um dia, o porteiro, que já me conhecia, disse que eu fosse à sala do gerente, que ficava no vão da escada, antes do mezzanino. Bati, entrei. Ele me perguntou alguma coisa do tipo ‘Que qui tu qué, guri?’ Eu disse ‘Não sei, o porteiro me mandou vir aqui.’ Ouvi a voz. “Mas eu sei, sou eu.’ Era o Mazzaropi, que acompanhava os lançamentos de seus filmes pelo Brasil. Fiquei aturdido, de boca aberta. Pela primeira eu via alguém da tela ao vivo. ‘Segura esse queixo, vai cair’, me lembro bem, me disse o Mazzaropi, naquele jeito dele. Abraçou-me. Aquilo me marcou. Contei em casa e ninguém acreditou. Imagina! Muitos anos depois, o Canal Brasil fez uma enquete com seu público para saber quem era o maior cômico brasileiro. Oscarito e Grande Otelo estavam bem na fita, mas houve uma reação e o Mazzaropi levou. Vi todos os seus filmes. Vi o preto e branco virar cor, naqueles filmes em que os cenários pareciam ter sido terminados na hora de filmar e o figurino, além de brega, era novo em folha. Amei o Mazzaropi de Matheus Nachtergaele no Tapete Vermelho de Luiz Alberto Pereira.

Cheguei tarde em casa, passado da meia-noite. No automático, liguei a TV para dar uma zapeada. Não sei o que me fez parar no canal que apresentava o que descobri depois ser um filme de drama alemão, de Christian Zubert. Tour de Force já havia começado. Peguei, como se dizia, o bonde andando. Hannes e seus amigos todo ano saem numa viagem de bicicleta. Dessa vez, será a última. Ele comunica que está morrendo e convoca a turma para ir com ele a Ostende, passada a fronteira, onde a eutanásia é permitida e ele terá sua morte assistida. Deus do céu! Tentava controlar, mas as lágrimas escorriam. Não tenho nenhum pudor em dizer que adoro um bom melodrama. O valor da amizade, do amor. Todo mundo naquele quarto, o médico diz que, ao dar a injeção letal, tudo terminará rapidamente. A namorada que segura a mão de Hannes, seus olhos que se fecham. A Angel,a amada buldogue da Lúcia, demorou mais para morrer, eu segurando a patinha dela. Parece absurdo, além de insensível, comparar a morte de Hannes à da Angel, mas eu tenho certeza de que os cachorreiros, como eu, hão de entender. Depois da catarse, caí na cama e dormi feito um anjo.

Autor: Luiz Carlos Merten

jornalista

2 comentários em “É Tudo Verdade (7). Chegando a premiação, mas antes o Rithy Panh. O vento no cinema de Marina Weiss e Laura Faerman. E o meu tributo tardio a Mazzaropi”

  1. Quando penso em vento sempre me lembro de Uma História do Vento de Joris Ivens e Marceline Loridan no que é considerado um testamento de Ivens que passou a vida filmando grandes convulsões sociais ao mesmo tempo que abordava temas aparentemente prosaicos como a chuva que com o vento fazem parte das forças da natureza ao largo do olhar humano que insiste em captar apenas o que é visível …

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  2. Amigo, cita num único poste: Philippe Garrel (adorro!), vi tudo dele no cinema quando esteou aqui. E há anos espero ver Os Amantes do Círculo Pola, obrigado pela dica. Vou assinar a Mubi. Ainda… Mazzaropi. Minha mãe adora. E a intelligentsia brasileira nem dá bola e vai além dando-lhe uma pecha de ridículo.

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