Os jogos! E o inferno de Rodantes

Estou assistindo à cerimônia de abertura da Olimpíada, ao desfile das delegações. Velho tonto! Emociono-me com facilidade. Vou voltar ao tema – os jogos no cinema. Estou acrescentando esse começo ao texto que já havia escrtito, mas não salvei. Estou indo à cabine do documentário de Ana Maria Magalhães sobre a verde e rosa, na qual já desfilei. Fui anteontem no final da tarde à pré-estreia de Rodantes, o longa de Leandro Lara, ou Leandro HBL, no Arteplex Frei Caneca. O filme estreará na semana que vem. Nas salas e no streaming.

Três personagens cujas histórias correm fragmentadas, em Roraima. Uma prostituta de beira de estrada, Carol Abras, um haitiano que tenta sobreviver com os filhos após a morte da mulher, Felix Smith, e um chapeiro que vive uma experiência homossexual violenta com um caminhoneiro que se revela homofóbico, Jonathan Well. Antes da sessão, no lobby do cinema, o diretor mostrou os cartazes – dez – criados por diferentes designers. O próprio Leandro é artista gráfico. Percebe-se pelo visual elaborado do filme. As emulsões ultrassensíveis criam imagens recortadas, superpostas, explosões de luz – os carros na estrada, logo no começo -, e tudo isso é belo, apesar da degradação dos ambientes e das personagens.

Pareceu-me um filme de processo. Na apresentação, Leandro agradeceu ao psicanalista que fez a preparação do elenco. Atores profissionais, atores naturais. Eu pensava o tempo todo em Iracema, Uma Transa Amazônica, de Jorge Bodansky e Orlando Senna. Uma versão mais estetizante do clássico, mas, no fundo, o mesmo universo nas bordas. A grande floresta e seus mitos. A estrada e seus desvios. O sexo como dominação. A força e a fragilidade humanas. Perguntava-me em que momento esses fragmentos de vida iriam se cruzar, fazer sentido, e eles se cruzam, embora não, talvez, com a ressonância pretendida pelo diretor. Todas as histórias convergem para esse rio que sai do curso e isola as pessoas em ambas as margens. E, durante toda a projeção, um redemoinho na água, um vórtex?, prepara para o desfecho.

Las aguas bajam turbias. Leandro talvez nem saiba que existe um filme argentino, de 1952, com esse título. As águas correm turvas, barrentas. O Inferno Verde – título alternativo. Um clássico político e social do peronista histórico Hugo Del Carril. O Selva Trágica da Argentina – os obreros explotados insurgem-se contra seus exploradores e criam o sindicato. No Leandro, falta essa consciência. O trio de protagonistas chega ao final estropiado. Um retrato do Brasil, ilhado naquela margem. Ou nos reorganizamos como nação ou essa horda de milicianos no poder, como a saúva, destrói o Brasil.

Autor: Luiz Carlos Merten

jornalista

2 comentários em “Os jogos! E o inferno de Rodantes”

  1. Ontem assistindo O Estranho Caso de Angélica no CCBB de cara reconheci a exuberante Ana Maria Magalhães num dialogo com Luis Miguel Cintra e José Manuel Mendes e fiquei pensando por onde andava pronto você já me respondeu …obrigado por seu Blog …

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